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Conheça Lucas Pinheiro, o 1º campeão de inverno do Brasil

mais.opovo.com.br By André Bloc 2026-02-21 1393 words
Resumo Filho de mãe brasileira e pai norueguês, Lucas cresceu entre as duas culturas, enfrentando o desafio de se sentir "estrangeiro" em ambos os países devido ao seu jeito espontâneo na Noruega e às dificuldades com a língua no Brasil. Iniciou sua carreira profissional na equipe da Noruega, onde se tornou um dos melhores do mundo, mas decidiu se aposentar daquela federação em 2023 após conflitos sobre patrocínios e falta de liberdade criativa.Após um período de pausa, retornou às competições em 2024 defendendo as cores brasileiras, culminando na conquista da primeira medalha de ouro da história do Brasil e da América Latina em Jogos Olímpicos de Inverno, em Milão-Cortina 2026.Sua transição e sucesso trouxeram uma visibilidade inédita para o esqui alpino no Brasil, com transmissões em grandes canais nacionais e um crescimento expressivo de sua presença nas redes sociais, onde celebra sua identidade "100% brasileira"

No Instagram a arroba é pinheiiiroo. A referência é ao nome do meio, herdado da mãe, a paulista Alessandra, cujo sobrenome evoca a árvore típica de Natais no frio do hemisfério norte, em imagem que os brasileiros importaram ao assistir a filmes de fim de ano dos Estados Unidos.

O outro sobrenome é Braathen. É norueguês, herdado do pai Bjørn, dono do nome mais escandinavo possível. A pronúncia é complexa para o léxico tupiniquim. Os dois "a", em línguas nórdicas, soam como um "o". O "t" é um leve toque da língua no palato superior. Parece com Brótun.

Aqui, ninguém fala Braathen corretamente. Lá na Noruega, onde Lucas Pinheiro Braathen nasceu, o sobrenome brasileiro sempre foi o desafio. Por lá, pelo jeito espontâneo, à flor da pele, ele sempre foi visto como estrangeiro.

Por aqui, quando tropeçava na dezena de conjugações verbais das línguas românicas, se sentia um tanto gringo. Foi crescendo, nas pontes aéreas de pais separados por um oceano Atlântico e culturas diferentes.

A paixão pelo esporte nasceu no país tropical. Torcedor do São Paulo, até hoje mostra intimidade com a bola. O craque Erling Haaland (fala-se Hollán) mostra que na Escandinávia tem disso também. Pois Lucas puxou pra si a missão de mostrar que pelo lado de cá tem craque do esqui também.

Já nasceu em ponte aérea. Pai e mãe se conheceram em um voo rumo a Miami, nos Estados Unidos. A paixão mudou a rota para Oslo, onde ele nasceu. Na capital norueguesa, o fã de Ronaldinho Gaúcho queria treinar futebol. Mas quando o branco da neve escondia o verde da grama, era hora de tentar algo novo.

Aos 9 anos — bem tarde para um norueguês, bem cedo para um brasileiro —, Lucas cedeu à insistência de Bjørn e experimentou calçar esquis. O garoto odiou. Mas perseverou até ver que o caso não era sem jeito.

Se o Brasil é a pátria de chuteiras, a Noruega é a pátria de esquis. É a superpotência dos Jogos de Inverno. Com população de cerca de 5,6 milhões de habitantes, o país nórdico ocupa o topo do quadro histórico da Olimpíada fria.

São mais de 400 medalhas, sendo meia centena de ouros. Foi a nação líder do ranking final em 9 dos 24 Jogos, incluindo os três mais recentes. E neste 2026, em Milão-Cortina, permanece sentado tranquilamente no trono do esporte.

Em 2018, aos 18 anos, passou a virar figurinha repetida no time Noruega de esqui alpino, que desafia o da Suíça no domínio das várias categorias do esporte. Aprendeu que vida de atleta é regrada. Aprendeu senso de coletividade. Aprendeu que há sempre uma próxima corrida.

E entendeu que era bom. Mais que bom. Estava entre os melhores. Veio o título no Mundial Júnior por equipes em Davos, na Suíça. Um ano depois, em Val di Fassa, foram dois pódios — um deles uma prata individual, na disciplina Super-G.

No país invernal, tomou gosto por descer montanhas em alta velocidade. Encontrou-se nas modalidades mais técnicas do esqui alpino, o slalom e o slalom gigante. O próprio termo "slalom", que batiza as disciplinas, vem do norueguês. Vem de "slalåm" — trilha numa descida, em tradução bem livre.

Basicamente, serve para denominar as disciplinas em que os esquiadores ziguezagueiam ladeira abaixo por entre "bandeirinhas", conhecidas como portas. Ousado, Lucas prefere a versão tradicional da prova, na qual a margem de erro é ínfima ao ponto de a descida acabar em segundos em caso de desvio da trilha.

Conheceu o mundo, outras culturas, aprendeu diversidade, algo que tateava desde o berço. A mãe, brasileira, mora na Nova Zelândia. A família materna, ele visita entre Campinas (SP) e Paulínia (SP).

Mergulhou no glamour de Kitzbühel, na Áustria, onde estrelas da moda, das artes e dos esportes assistem a esquiadores descerem o morro em corridas noturnas.

Morou em Paris, capital do mundo, e em Milão, capital do futuro olímpico dele. Juntou o alemão às línguas que fala — como escandinavo, já era bilíngue (norueguês e inglês) e da árvore genealógica emprestou ainda o português.

Mas hesitava em fazer do esqui alpino sua vida. O sorriso fácil, o cabelo longo e loiro e as danças constantes emprestaram um inegável carisma a Lucas. E, com ele, vieram os convites. E os patrocínios. E, com eles, os conflitos aumentaram. O esquiador se refere a esse momento como de "falta de liberdade".

Era 2023. O então atleta norueguês tinha três ouros em etapas de Mundial, mas a poderosa federação nacional de esqui barrava publicidades e marcas de esquiarem com Lucas. Foi então que a carreira dele foi encerrada. Aposentadoria.

Ainda em 2020, desconhecido do grande público, Lucas Pinheiro Braathen deu entrevista ao jornalista Demétrio Vecchioli, então no Uol. Nela, avisavam. O "match" entre Brasil e Lucas podia acontecer. Já ali, ele reclamava da frieza norueguesa, que contrastava com o calor dele próprio.

"Quando eu estou no Brasil, eu adoro esse jeito de brasileiro. É muito diferente da família norueguesa, tem mais calor, mais amor. Eu adoro. Eu sou uma pessoa que tem muito amor, sou muito amoroso".

Depois de uma temporada de "jovem aposentado" em Ilhabela, no litoral de São Paulo, os chacras realinharam. Calçou os esquis de novo. Os patrocinadores aceitaram a aposta de montar uma equipe só dele.

A Confederação Brasileira de Desportos na Neve (CBDN) confirmou o flerte e fez um convite para que ele mudasse a nacionalidade esportiva — sem naturalização, já que brasileiro ele sempre foi. A Noruega ajudou e em 2024 o verde-e-amarelo despontou no branco da neve.

Beaver Creek (EUA), dezembro de 2024. O Brasil conquistou uma medalha em etapa de mundial de esqui alpino: prata no slalom gigante. Lucas terminou namoro. Passou a competir contra os amigos noruegueses. Lidou com a frustração, com a raiva, sozinho.

Mudou-se para Milão. Engatou namoro com a atriz brasileira Isadora Cruz — a Candoca de "Mar do Sertão". Novembro de 2025, Levi (Finlândia): o hino brasileiro estreou em esportes da neve. Ouro no slalom.

"Vamos dançar", gosta de repetir. Para quem é de coach, um slogan. Para quem é espiritualizado, um mantra.

Subiu a montanha em Bormio, comuna na Lombardia (Itália), como um dos favoritos do slalom gigante nos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina. Ele, os antigos colegas de time Noruega e um exército de suíços enfileirados atrás do mito Marco Odermatt. Foi o primeiro a descer na primeira bateria. E assim liderou de ponta a ponta.

Fez a primeira corrida em 1m13s92, quase um segundo mais rápido que os rivais. Foi o último a descer na segunda. Só caiu depois da linha de chegada, 1m11s08, fechando 0,52s mais rápido que Obermatt. Primeira medalha do Brasil. Primeiro ouro do Brasil. Primeira medalha da América Latina. Primeiro ouro da América Latina.

Antes de Lucas Pinheiro Braathen, o Brasil mal ouvia falar em esqui. Hoje, as provas deles são exibidas na maior TV do País, a Globo, e no maior canal esportivo do Youtube nacional, a CazéTV.

O esquiador, entre a boca fácil de sorrir e o olho fácil de chorar, celebra a liberdade que encontrou ao se descobrir 100% brasileiro. Não 50% brasileiro e 50% norueguês, mas 100% dono de suas origens.

O Instagram, @pinheiiiroo, já está passando de 1 milhão de seguidores. Com o empurrão de 220 milhões de conterrâneos, logo logo ele passa os 1,1 milhão de habitantes de Oslo, cidade-natal dele. É questão de tempo.

Quem não quer dançar com o campeão?

Série vai explorar personagens - famosos e anônimos - para destacar histórias de vida

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