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África, carnaval brasileiro e soft power, por Carolina Maira Morais

jornalggn.com.br By Observatorio de Geopolitica 2026-02-26 1003 words
África, carnaval brasileiro e soft power

por Carolina Maira Morais

Que a África é um território com enorme potencial, ninguém duvida. Diversos estudos econômicos apontam o continente africano como o continente do futuro. De acordo com projeções da ONU, por exemplo, até 2050 o continente terá mais de 850 milhões de jovens entre 15 e 34 anos, o que representa a maior ascensão demográfica de jovens no mundo. Jovens que produzem cultura e também consomem. Mas será que o continente faz uso do seu capital simbólico?

O continente africano, com seu repertório estético, espiritual e histórico, atravessa séculos, molda culturas e inspira linguagens visuais em diferentes partes do mundo. No entanto, há um paradoxo evidente: enquanto o mundo consome intensamente imagens, símbolos e narrativas africanas, vide a indústria do audiovisual com Rei Leao e Wakanda, para mencionar apenas dois produtos, o continente ainda aproveita pouco esse capital simbólico como estratégia de soft power.

O conceito, formulado por Joseph Nye, refere-se à capacidade de um país influenciar outros por meio da cultura, dos valores e da atração simbólica. Se aplicarmos essa lente ao carnaval brasileiro — especialmente aos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro e de São Paulo — veremos algo revelador: o Brasil projeta, com enorme visibilidade global, ativos simbólicos africanos que poderiam também operar como ferramentas estratégicas do próprio continente.

O Carnaval não é apenas festa. É transmissão global de imagem fomentando a indústria criativa brasileira. Trata-se de uma das maiores plataformas de espetáculo do hemisfério sul, com alcance internacional, milhões de espectadores e forte impacto na economia criativa. E, de forma recorrente, África está no centro dessa narrativa. Em 2026, três exemplos ilustraram com clareza como o patrimônio simbólico africano ocupa posição de destaque na avenida.

A Beija-Flor de Nilópolis abriu seu desfile com um carro alegórico inspirado nos históricos bronzes do antigo Reino do Benin, obras que hoje estão no centro do debate internacional sobre restituição patrimonial. Milhões de pessoas assistiram à releitura monumental de um dos mais sofisticados conjuntos artísticos da África pré-colonial. A imagem circulou globalmente, reafirmando a grandiosidade técnica e estética daquele reino. A pergunta estratégica que emerge é simples: houve articulação institucional com o atual Estado de Edo (Nigeria)? Museus, ministérios ou autoridades culturais capitalizaram essa visibilidade como ação diplomática ou cultural? A potência simbólica estava ali, mas a transformação dessa projeção em política de influência ainda pode ser ampliada.

Em São Paulo, a Mocidade Alegre apresentou, no enredo dedicado a Lea Garcia, uma impactante alegoria de Osun. Divindade, cuja origem remete ao território iorubá na atual Nigéria, tornou-se uma das imagens espirituais mais difundidas do Atlântico Negro. No Brasil, sua representação mobiliza fé, estética e identidade. Mais uma vez, observa-se que a diáspora opera com enorme eficiência o soft power africano, projetando cosmologias e referências tradicionais para audiências globais. Entretanto, permanece a questão: essa circulação simbólica está conectada a estratégias culturais oficiais do continente ou permanece restrita à força orgânica da diáspora. O Estado de Osun existe, mas será que soube aproveitar a viralização dos vídeos do carro alegórico de Osun, posicionando-se para o turismo internacional, por exemplo?

No Rio de Janeiro, a Paraíso do Tuiuti levou à avenida uma alegoria em homenagem a Ilé Ifé, cidade sagrada para os iorubás considerada o berço da humanidade e território origem do Ifa, corpus filosófico. Ao inserir Ilé Ifé no maior espetáculo popular do Brasil, o desfile reafirmou a centralidade civilizatória africana e projetou uma narrativa que confronta séculos de apagamento histórico. Contudo, novamente surge a reflexão estratégica: essa visibilidade foi integrada a uma política de diplomacia cultural coordenada com autoridades da Nigéria? Houve articulação turística, acadêmica ou institucional que transformasse a exibição simbólica em ganho estratégico?

O que está em jogo é maior do que representação estética. Quando escolas de samba mobilizam bronzes do Benin, cosmologias iorubás, reinos pré-coloniais, espiritualidades tradicionais e narrativas de resistência, elas estão produzindo imagem internacional sobre África. A questão central é que a imagem circula, mas o capital simbólico nem sempre retorna em forma de influência institucional, cooperação cultural estruturada ou expansão de mercado para os próprios países africanos.

Soft power não é espontâneo; é estratégia. Países que compreenderam essa lógica transformaram cultura em política de Estado e em ativo econômico. O continente africano possui repertório civilizatório milenar, densidade histórica e potência estética incomparáveis. O Carnaval brasileiro demonstra, ano após ano, que há audiência global interessada nessa herança. A ausência não é de conteúdo, mas de coordenação estratégica para converter visibilidade em diplomacia cultural organizada.

O Brasil, por meio do Carnaval, tornou-se um difusor global de estética afro-atlântica. Isso abre caminhos claros: parcerias formais entre escolas de samba e ministérios da cultura africanos, intercâmbio estruturado entre artistas e pesquisadores, cooperação turística e patrimonial envolvendo cidades históricas e centros culturais do continente, cidades como Lagos, Accra ou Ouidah poderiam dialogar institucionalmente com as agremiações brasileiras, transformando desfiles em pontes diplomáticas permanentes.

Ao não estruturar plenamente seu soft power, países africanos perdem oportunidades na economia criativa, e mais do que: na inserção estratégica na diplomacia cultural do Atlântico Sul e possibilidades de ampliar turismo, diversificar sua imagem e ampliar investimentos culturais. O carnaval brasileiro prova que o mundo quer ver África. O desafio é decidir se essa presença continuará sendo apenas inspiração simbólica ou se se tornará política cultural coordenada. A África não carece de soft power, ao contrário, o produz em abundância. O que falta é converter símbolo em estratégia, estética em diplomacia e memória em ativo internacional. Enquanto os desfiles do Rio e de São Paulo seguem projetando Benin, Ilé Ifé e entre outras cosmologias para milhões de espectadores, permanece uma pergunta inevitável: quem está organizando esse poder?

Carolina Maira Morais, historiadora e cofundadora da The African Pride.

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