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Internet aproveita abundância de documentos do caso Epstein para acusar famosos de canibalismo

aosfatos.org 2026-02-10 722 words
Cerca de um mês depois da revelação de novos documentos sobre o caso de Jeffrey Epstein, a internet continua inventando mentiras para tentar minar a reputação de artistas e políticos.

Mas vamos combinar: era de se esperar. São tantos documentos — cerca de 3 milhões de páginas, 2.000 vídeos e 180 mil imagens — sobre o empresário acusado de liderar uma rede de tráfico sexual que não é difícil acreditar em eventuais bizarrices que pipocam por aí.

Na última semana, começou a viralizar nas redes — tanto nos EUA quanto aqui no Brasil — a história de que os emails continham provas de que a apresentadora Ellen Degeneres e o ator Leonardo DiCaprio teriam praticado canibalismo em eventos promovidos pelo empresário.

Segundo as peças de desinformação, o nome dos artistas seria citado nos documentos junto com a alegação de que eles adorariam comer pizza — o que, segundo a teoria da conspiração, seria um código para "comer carne humana".

Os conspiracionistas provavelmente inventaram esse "código" com base no Pizzagate, uma história comprovadamente falsa de que a elite democrata americana usaria uma pizzaria em Washington como fachada para uma rede de tráfico humano, exploração sexual infantil e até canibalismo.

Assim como o Pizzagate, a história da pizza de Degeneres e DiCaprio também é falsa: em busca nos documentos do caso Epstein no site do Departamento de Justiça americano, não encontramos nenhuma citação semelhante.

O nome "Degeneres" aparece 17 vezes, mas nenhuma delas traz uma conversa direta entre a apresentadora e Epstein. A grande maioria dos casos são menções aleatórias a notícias ou tuítes que fazem referência a ela;

Algumas publicações dizem ainda que uma prova de que Degeneres teria envolvimento com atividades ilícitas seria a sua mudança dos EUA. Para os conspiracionistas, ela teria saído do país para fugir de uma eventual penalização pelas informações que seriam divulgadas nos documentos liberados;

O fato, no entanto, é que a apresentadora deixou os EUA no final de 2024, após a vitória de Donald Trump nas eleições;

Já o nome "DiCaprio" aparece 64 vezes na base de dados. Da mesma forma, no entanto, não há nenhum envolvimento claro do ator em atos criminosos;

Em um email enviado em 2016 para o médico indiano Deepak Chopra, por exemplo, Epstein pergunta se ele acha que DiCaprio se interessaria em jantar com "Woody" — uma provável menção ao diretor Woody Allen. Chopra responde, então, que iria perguntar "se ele está por aqui". Não há informações sobre a ocorrência desse jantar.

As acusações de canibalismo nasceram de uma conspiração criada por representantes da direita americana, como o apresentador Tucker Carlson, que têm dito que os emails teriam códigos secretos para se referir à pedofilia e ao canibalismo.

A organização de checagem americana Snopes, que investigou os documentos a fundo, afirma que, de fato, há acusações de canibalismo e sacrifícios ritualísticos, mas elas não são comprovadas.

As citações diretas a "canibalismo" e "canibal", por exemplo, aparecem em trechos e títulos de notícias, em um artigo acadêmico, um diálogo entre Epstein e outro homem (mas sem indicação de crime) e em um email recebido pelo empresário em que o remetente cita um restaurante chamado Cannibal — de fato, havia um estabelecimento com esse nome em Nova York.

Como não cair em desinformação sobre o caso Epstein

O caso Epstein é um ótimo motor de desinformação por conta da quantidade de documentos disponíveis: são muitos registros e ninguém vai se dar ao trabalho de ler milhões de páginas.

Caso você esteja desconfiando de algo que viu na internet sobre o caso, é possível adotar passos rápidos e simples para checar a veracidade da alegação:

É possível realizar buscas por termos e nomes no site do Departamento de Justiça americano;

Existem projetos de visualização das informações do caso, como o JMail — uma simulação da caixa de entrada de Epstein no Gmail — e arquivos no github que também permitem pesquisas;

Lembre-se que a citação ao nome de uma pessoa não necessariamente a envolve em algum crime. Centenas de pessoas são citadas nos documentos porque aparecem em notícias compartilhadas por Epstein ou recebidas via clipping. Também há o caso de azarados, como a apresentadora Luciana Gimenez, que tinha uma conta no mesmo banco que o empresário;

Por fim, sempre verifique se alguém já desmentiu a história ou se a pessoa citada comentou o caso.

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