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ETs no Ceará: você acredita em vida além da Terra?

mais.opovo.com.br By Bianca Nogueira; Especial para O POVO 2026-03-13 1379 words
Resumo As cidades de Quixadá e Quixeramobim, no Sertão Central do Ceará, possuem uma longa tradição de relatos sobre objetos voadores não identificados que atravessam gerações, tornando-se um elemento central da identidade cultural e da memória coletiva da região. Produzido pelo O POVO+, o documentário "Abduzidos" busca compreender como essas narrativas de "visitantes" moldaram a sociedade local; o foco da obra não é apresentar provas científicas, mas sim observar como essa mitologia contemporânea se integra ao cotidiano dos moradores.Um dos episódios mais emblemáticos e que serviu de ponto de partida para o documentário foi o relato da escritora Rachel de Queiroz, que afirmou ter visto um objeto estranho em sua fazenda; a credibilidade e o respaldo intelectual da autora reforçaram a aura de mistério em torno da região.A paisagem única de Quixadá, caracterizada por seus monólitos rochosos, alimenta a sensação de segredos antigos e atrai turistas, fotógrafos e pesquisadores da ufologia de diversas partes do Brasil, consolidando a fama da cidade no cenário nacional e internacional.

No interior do Ceará, onde o sertão se encontra com formações rochosas monumentais e céus amplos de horizonte quase infinito, histórias sobre objetos voadores não identificados atravessam gerações.

Na região do Sertão Central — especialmente em cidades como Quixadá e Quixeramobim — relatos de luzes estranhas no céu, objetos metálicos silenciosos e encontros inexplicáveis fazem parte do imaginário popular há décadas.

Esse conjunto de narrativas, que mistura memória coletiva, curiosidade científica e tradição oral, tem atraído pesquisadores, curiosos e entusiastas da ufologia de várias partes do Brasil.

Agora, esse universo ganha uma nova leitura audiovisual com o lançamento do documentário "Abduzidos", produzido pelo O POVO+, que busca compreender como essas histórias moldaram a identidade cultural da região.

>>Para assistir à íntegra do documentário Abduzidos, clique aqui

A paisagem de Quixadá talvez explique parte do fascínio. A cidade é conhecida pelos monólitos, grandes formações rochosas que surgem abruptamente da planície sertaneja. Para muitos moradores, esses cenários alimentam a sensação de que o lugar guarda segredos antigos — uma atmosfera propícia para histórias que desafiam explicações simplistas.

Relatos sobre objetos luminosos no céu começaram a circular com mais intensidade a partir da segunda metade do século XX. Ao longo do tempo, surgiram narrativas de pessoas que afirmam ter visto discos metálicos pairando sobre a cidade, luzes que cruzavam o céu em movimentos incomuns ou objetos que desapareciam de forma repentina.

Essas histórias, ainda que muitas vezes impossíveis de comprovar, passaram a integrar o cotidiano local. Conversas em praças, bares e feiras frequentemente retomam episódios curiosos envolvendo luzes misteriosas ou "visitantes" vindos de outros mundos.

No Brasil, a ufologia possui tradição consolidada desde os anos 1950, com investigações realizadas por pesquisadores independentes e, ocasionalmente, por órgãos oficiais. Um dos episódios mais conhecidos foi a Operação Prato, investigação conduzida pela Força Aérea Brasileira nos anos 1970 no Pará.

Embora o caso seja distante geograficamente do Ceará, ele ajudou a popularizar o debate sobre fenômenos aéreos não identificados no país.

No Sertão Central cearense, porém, o fenômeno ganhou uma dimensão própria. Mais do que objeto de pesquisa, tornou-se um elemento de identidade cultural.

Um dos episódios mais emblemáticos ligados à região envolve a escritora Rachel de Queiroz, uma das figuras mais importantes da literatura brasileira e primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras.

Segundo relatos amplamente difundidos na imprensa da época, Rachel afirmou ter observado um objeto estranho no céu nas proximidades de sua fazenda Não Me Deixes, em Quixadá.

A declaração chamou atenção não apenas pelo conteúdo inusitado, mas também pela credibilidade da autora, conhecida por seu rigor intelectual.

"Entre as décadas de 1950 e 1960, a escritora Rachel de Queiroz, conhecida por sua prosa realista, abordou, em suas crônicas, o mistério dos discos voadores, inserindo o tema insólito em sua produção literária"

A narrativa reforçou a aura de mistério em torno da região e passou a ser citada frequentemente por pesquisadores e curiosos do tema.

O roteirista do documentário, Arthur Gadelha, colunista de cinema do O POVO+, explica que esse episódio foi um dos pontos de partida para a construção do filme.

"A ideia do documentário parte especialmente do relato da Rachel de Queiroz, inclusive com cobertura do jornal O POVO na época, falando que ela viu um objeto não identificado no céu da fazenda dela", afirma Gadelha.

"Ela coloca isso à prova — o respeito e o respaldo que tinha como escritora muito famosa — para dizer que viu algo estranho que não era avião, não era drone, não era um Sputnik."

O roteirista lembra que, à época, chegou-se a especular que o objeto poderia ser um satélite artificial, hipótese que a própria escritora rejeitou.

Para além de um possível fenômeno físico, os relatos de OVNIs costumam revelar aspectos importantes sobre a cultura e o imaginário de uma comunidade. Antropólogos e estudiosos da cultura popular apontam que narrativas desse tipo funcionam muitas vezes como mitologias contemporâneashistórias que ajudam sociedades a interpretar o desconhecido.

No caso de Quixadá, essas histórias se multiplicaram ao longo do tempo. O curioso é que elas raramente permanecem restritas a um único indivíduo. Em muitos casos, surgem versões semelhantes contadas por diferentes moradores, reforçando a sensação de que algo extraordinário pode ter ocorrido.

Esse fenômeno atrai visitantes interessados em conhecer de perto os cenários dessas histórias. Turistas curiosos, fotógrafos do céu noturno e pesquisadores da ufologia frequentemente incluem a região em roteiros de exploração. Na cidade, a tradição das histórias de avistamentos movimenta negócios, como a "Vibe Ecoturismo", empresa que promove trilhas em Quixadá. E, inclusive, conduziu a equipe de filmagem do O POVO por uma das trilhas.

Eventos temáticos, conversas informais e encontros entre entusiastas ajudam a manter viva a curiosidade coletiva sobre o tema.

Foi nesse ambiente cultural que surgiu a ideia de produzir "Abduzidos". Segundo Arthur Gadelha, o projeto vinha sendo discutido há anos dentro do núcleo audiovisual responsável pela produção.

"A ideia de fazer esse documentário acompanhava a produção do núcleo audiovisual por muito tempo. Desde 2020 a gente fala sobre isso. É um assunto importante, um assunto que todo mundo conhece e que projeta Quixadá na esfera nacional ou até internacional para quem estuda ufologia", explica o roteirista.

Mas o objetivo do filme não é apresentar provas ou respostas definitivas sobre os fenômenos.

Pelo contrário: a proposta é observar como essas narrativas se espalham, ganham força e passam a fazer parte da vida cotidiana da cidade.

"A ideia do documentário não era questionar, não era explicar nada. A gente queria ver como uma sociedade é tão afetada por essa mitologia", afirma Gadelha.

Para isso, a equipe percorreu ruas, comércios e espaços públicos de Quixadá em busca de histórias.

Segundo o roteirista, praticamente todos os moradores conhecem alguém que afirma ter presenciado algo estranho no céu.

Personagens do cotidiano

Uma das escolhas narrativas do documentário foi priorizar personagens comuns. Em vez de se concentrar apenas em especialistas ou pesquisadores da ufologia, o filme reúne relatos de moradores que convivem com essas histórias no dia a dia.

Comerciantes, moradores antigos e trabalhadores da cidade compartilham experiências que, em alguns casos, permaneciam restritas ao círculo de amigos e familiares.

Essa abordagem ajuda a revelar como o fenômeno se transforma em parte da identidade coletiva da cidade.

"Grande parte dos personagens a gente encontrou lá mesmo. Todo mundo conhece alguém que tem uma história", diz Gadelha.

O documentário também explora o contraste entre o ceticismo e a crença.

Enquanto algumas pessoas veem as histórias com curiosidade ou humor, outras afirmam ter testemunhado acontecimentos que não conseguem explicar.

O interesse mundial por objetos voadores não identificados ganhou novo impulso nos últimos anos.

Relatórios divulgados pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos passaram a utilizar o termo Fenômenos Aéreos Não Identificados (UAP, na sigla em inglês) para designar ocorrências que ainda não possuem explicação clara.

Embora a maioria desses casos acabe sendo associada a fenômenos naturais, aeronaves ou tecnologias experimentais, uma pequena parcela permanece sem explicação conclusiva.

Esse cenário alimenta o fascínio popular e ajuda a explicar por que histórias como as do Sertão Central continuam despertando curiosidade.

No Ceará, no entanto, a dimensão cultural dessas narrativas parece ser ainda mais relevante do que a investigação científica em si.

"A cidade de Quixadá lida com essa mística e aceita que ela existe. A mitologia existe", resume Arthur Gadelha.

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