A macabra lenda soviética que inspirou o 1º sucesso internacional do diretor de 'O Agente Secreto'
"Vinil Verde", curta-metragem realizado em 2003 e lançado no ano seguinte, possibilitou a Mendonça sua primeira participação como autor no propalado Festival de Cannes —integrou a seleção da Quinzena dos Realizadores, na edição de 2005.
"O filme ganhou dezenas de prêmios e nunca deixou de ser visto nesses 20 anos", afirma o cineasta, em nota enviada para a BBC News Brasil.
Ambientada em um apartamento recifense, a macabra trama conta a história de uma menina que ganha da mãe uma caixa cheia de antigos discos de vinil com músicas infantis.
O presente vem com uma ordem: todos podiam ser ouvidos, exceto o de cor verde. Toda vez que a garotinha desobedece a determinação, sua mãe sofre uma consequência assustadora.
O filme é elogiado não só pela história em si, mas principalmente pela construção da narrativa. "Vinil Verde" foi concebido e executado como uma montagem de fotos feitas por Mendonça.
No total, foram utilizados seis rolos de filme colorido de 36 poses para a produção. Ele diz que suas inspirações foram o curta-metragem francês "La Jetée", lançado pelo cineasta Chris Marker (1921-2012) em 1962, e o filme "Jugular", de 1998, da brasileira Fernanda Ramos. "O uso de fotos narrativas me atrai até hoje", diz Kleber.
Ideia ucraniana
Quem aproximou o brasileiro do assustador enredo de uma lenda urbana soviética foi uma cineasta ucraniana, Bohdana Smyrnova.
Conforme o texto "O Lado Cineasta do Crítico de Cinema", matéria publicada pelo Jornal do Commercio em fevereiro de 2003, Smyrnova e Mendonça haviam se conhecido no ano anterior, em festival de cinema realizado em Belo Horizonte —na qual ela participara exibindo seu curta "Les Démarches des Papiers" e ele, como jornalista. Dali, engataram um relacionamento.
O jornal conta que "no último fim de semana" as filmagens haviam se iniciado e que o trabalho era "codirigido por Mendonça Filho e sua namorada, a cineasta e roteirista ucraniana".
"Eu conheço essa história desde a infância, porque é aquele tipo de história que as crianças contam umas para as outras", conta Smyrnova, em conversa com a BBC News Brasil. Ela atualmente mora em Nova York, nos Estados Unidos.
"O Kleber queria filmar alguma coisa [de terror], e eu comentei que tinha várias histórias assustadoras [no universo eslavo]. Apresentei este gênero para ele e escolhemos esta [trama]", recorda ela, que guarda em seus arquivos a cópia digitalizada da edição do Jornal do Commercio em que aparece ao lado do então namorado brasileiro.
No universo soviético, havia variações para a lenda. Mas geralmente envolvendo um disco verde que jamais poderia ser ouvido. Em geral, o tom carregava fundo moralista. Algo do tipo: olha só o que acontece com quem não obedece as regras.
Terra natal da cineasta, a Ucrânia foi um dos membros fundadores da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas em 1922 e fez parte do Estado socialista até sua dissolução, em 1991.
Há uma outra camada a ser considerada na semântica de uma lenda urbana soviética de terror em que o objeto central é um disco de vinil.
No auge do regime totalitário russo, quando músicas ocidentais eram restritas, um grupo de pessoas conhecidas como "stilyagi" ("estilosos", em tradução para o português) passou a usar chapas descartadas de exames de raio-X como matéria-prima para prensar discos piratas.
O acabamento circular era feito com tesourinha de manicure e um cigarro aceso produzia o furinho central. O som ficava ruim, mas dava para ouvir. Como as chapas tinham imagens de ossos de pacientes, o aspecto final tinha aparência um tanto mórbida —algumas crianças se abalavam com aquelas cenas dos pais botando na vitrola um disco esquisito assim.
Conforme o cineasta Mendonça contou em entrevista concedida em 2018 à jornalista e letróloga Maria de Lourdes Guimarães, para um trabalho de pós-graduação apresentado por ela na Universidade de São Paulo, ele particularmente estava interessado em histórias desse tipo.
Em 2002, havia feito um curta chamado "A Menina do Algodão", a partir da lenda urbana de uma assombração que supostamente frequenta banheiros de escolas públicas —versão parecida com a lenda da "loira do banheiro", conhecida em algumas regiões do Brasil.
Segundo Mendonça, foi por causa disso que a ucraniana acabou lhe falando sobre o conto popular soviético. Ele comentou que havia várias versões para a lenda urbana, já que "era passada de boca em boca por crianças".
"Acho que a história original que eu ouvi era com luvas verdes [em vez de discos verdes]. A gente terminou fazendo uma mistura: colocamos o disco verde de vinil e, na parte final, entram as luvas", disse.
Uma versão dessa fábula popular, com discos verdes mas ligeiramente diferente do enredo do curta-metragem, aparece no livro russo "Folclore Infantil Assustador", uma coletânea de aterrorizantes histórias de domínio público reunidas pelos escritores Andrei Usachev e Eudrado Uspensky (1937-2018), publicada na Rússia em 1992.
Equipe enxuta
Na entrevista sobre o filme que Mendonça deu em 2018 ele comentou o que se lembrava do processo de produção da obra. "[...] Eu escrevi o filme com Bohdana Smyrnova e passei pelo processo de realização do filme, que foi tudo muito simples, com uma microequipe", afirmou, citando o cineasta Daniel Bandeira e as duas atrizes, mãe e filha (na vida real e no filme), Verônica Alves e Gabriela Souza.
"Eu fotografei o filme no apartamento delas", ressaltou.
Smyrnova ficou apenas três meses no Brasil em 2003. "Foi quando concebemos o projeto", diz ela. Depois, voltou para Kiev, na Ucrânia, onde vivia na época. Mendonça então criou um pequeno time para terminar o filme.
O cineasta Bandeira foi chamado para ser seu braço-direito na edição e na montagem. Eles já haviam trabalhado juntos em "A Menina do Algodão".
"A ideia do roteiro era dele. Eu ficava com a parte mais técnica, de pensar como é que a ideia poderia ser executada, como a inspiração poderia ser traduzida", relembra Bandeira, em conversa com a BBC News Brasil.
"Eu não só procurava soluções técnicas para aquilo que o Kleber concebia como também tentava dar possibilidades, soluções, alternativas para que ele pudesse incorporar em sua própria narrativa."
Como produtora executiva, foi contratada a artista visual e psicanalista Isabela Cribari. À BBC News Brasil ela conta que "como a maioria dos filmes independentes e de baixo orçamento", o trabalho foi feito em duas etapas. Primeiro, a produção e a filmagem. Depois, a tarefa de "transformar aquele material em filme e distribuí-lo".
"Foi nessa segunda etapa que Kleber me convidou para compor a equipe", diz ela. "E eu gostei muito da proposta dele de fazer um filme de 35 milímetros, na época da hipervalorização do 35 milímetros como algo superior aos outros formatos, a elite mesmo, mas com um humor muito próprio do Kleber."
Para a trilha, Mendonça encomendou um trabalho para o músico Silvério Pessoa, pedagogo e professor na Universidade Católica de Pernambuco.
"Tivemos uma longa conversa na qual ele me explicou a história. Eu criei uma música com pegada, que criasse uma atmosfera de expectativa", afirma à BBC News Brasil. "Precisei de tempo para escrever e reescrever. Ficou uma coisa soturna."
A canção se chama "Luvas Verdes". De uns três anos para cá, Pessoa passou a incorporá-la em seu repertório autoral, executando-a em apresentações. "Ficou tenebrosa, sinistra, intensa. Tem clima, é quente", diz o compositor.
Significados
Tudo ficou pronto em 2004, e o filme foi lançado no Festival Internacional de Curtas de São Paulo, em setembro. Faturou prêmios no festival de Brasília daquele ano e no de Recife do ano seguinte. Foi selecionado para Cannes.
Para a especialista Gisele Jordão, coordenadora do curso de cinema e audiovisual da Escola Superior de Propaganda e Marketing, nesse curta já havia elementos que apontavam para a qualidade do trabalho posterior de Mendonça.
Ela destaca a "confiança no dispositivo" —com poucos personagens, espaço delimitado e um objeto central— e a habilidade de construir atmosfera "por meio de enquadramentos, duração dos planos e desenho de som".
"'Vinil Verde' insere o cotidiano como lugar de perturbação, sem recorrer a elementos externos espetaculares", acrescenta Jordão.
O site cultural francês SensCritique classificou o filme como "bastante incomum em todos os sentidos, modesto e formidável em sua abordagem" e pontuou que a obra marcou "o início de uma relação duradoura entre o festival [de Cannes] e o diretor".
Em reportagem do ano passado, o site francófono especializado em festivais de cinema Accréds se lembrou desse antigo curta de Mendonça ao contar a história da "perna cabeluda", a lenda urbana retratada em "O Agente Secreto".
"Uma lembrança de que um dos primeiros amores do diretor foi o cinema de terror, como visto em seu curta-metragem 'Vinil Verde'", pontuou.
Mais do que ambientar o universo mítico soviético no colorido e quente Recife, Mendonça criou novas possibilidades semânticas.
Se a lenda urbana original trata da dicotomia entre a obediência e a culpa por desobedecer, "Vinil Verde" é uma obra sobre o amadurecimento —a criança que cresce e, gradualmente, mata a presença materna.
Bandeira acredita que a universalidade do filme está justamente na percepção de que as relações entre as gerações são assim: os pais vão "sumindo um pouco" à medida que "os filhos vão crescendo".
"É uma inquietação e um medo. Mas que também nos conecta com a experiência humana, com aquelas pessoas que vieram antes de nós e com aquelas que virão depois. A gente carrega e passa para a frente os medos e as angústias", afirma.
Tudo isso com a cara local. "Ele adaptou para o vinil dos disquinhos coloridos que fizeram parte de uma época no Brasil e foi fácil a identificação das pessoas", comenta a produtora Cribari.
"E também ninguém tem nome. Ser mãe, ser filha, isso leva as pessoas para o filme, que não se passa num reino distante. Somos nós, com toda a nossa ambiguidade ali. Talvez seja esse o terror do filme."
Estudiosa da obra de Mendonça, a linguista Marcella Wiffler Stefanini, pesquisadora na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), analisou o curta em artigo científico.
Para ela, "a desobediência da filha pode ser interpretada como uma luta feminista por autonomia e independência, marcada pela recusa em seguir os passos da mãe e a tentativa de trilhar seu próprio caminho, sem as amarras das gerações passadas".
A especialista Jordão vê a obra transitando entre medo, proibição e controle. "O curta transforma uma situação simples, a proibição de ouvir um disco, numa fábula sobre controle, curiosidade e transgressão", analisa. "A proibição não só limita a ação da criança, como organiza o desejo e o medo."
Na entrevista à pesquisadora Guimarães, Mendonça comentou que quando escrevia o texto para a narração do filme, "de próprio punho", se deu conta de que a história era sobre a ausência da mãe. No caso, sua própria mãe, que havia morrido há pouco. "Foi aí que eu entendi, de maneira muito forte, que o filme era sobre esse processo de perda, que não é fácil", comentou.
"É uma lenda urbana que causou uma impressão muito forte no Kleber. Porque lenda urbana é isso: é a expressão real da cultura e da alma de um povo em um certo momento", analisa o editor e montador Bandeira. E ele acabou fazendo um ponte entre Recife e Kiev, contando a história por meio da cor e da temperatura recifenses.
Este texto foi publicado originalmente aqui
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Direct interview with co-creator Bohdana Smyrnova
Primary source""A ideia do roteiro era dele. Eu ficava com a parte mais técnica, de pensar como é que a ideia poderia ser executada, como a inspiração poderia ser traduzida", relembra Bandeira, em conversa com a ..."
Direct interview with collaborator Daniel Bandeira
Primary source"Para a especialista Gisele Jordão, coordenadora do curso de cinema e audiovisual da Escola Superior de Propaganda e Marketing"
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Expert source"Estudiosa da obra de Mendonça, a linguista Marcella Wiffler Stefanini, pesquisadora na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)"
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Extensive historical, cultural, and production context provided throughout.
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"Terra natal da cineasta, a Ucrânia foi um dos membros fundadores da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas em 1922"
Historical context about Ukraine's Soviet history
Background"No auge do regime totalitário russo, quando músicas ocidentais eram restritas, um grupo de pessoas conhecidas como "stilyagi""
Cultural context about Soviet music restrictions
Background"No total, foram utilizados seis rolos de filme colorido de 36 poses para a produção."
Specific production detail
Statistic"Em 2002, havia feito um curta chamado "A Menina do Algodão", a partir da lenda urbana de uma assombração"
Background on filmmaker's previous work
Background"Uma versão dessa fábula popular, com discos verdes mas ligeiramente diferente do enredo do curta-metragem, aparece no livro russo "Folclore Infantil Assustador""
Literary context for the urban legend
BackgroundLanguage Neutrality
Absence of loaded, sensationalist, or politically biased language
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Language is consistently factual and descriptive without sensationalism.
Specific Findings from the Article (4)
"Hoje aclamado como um dos maiores cineastas em atividade"
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Neutral language"Ambientada em um apartamento recifense, a macabra trama conta a história"
Descriptive, non-sensational language
Neutral language"O filme é elogiado não só pela história em si, mas principalmente pela construção da narrativa."
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Neutral language"Para a especialista Gisele Jordão, coordenadora do curso de cinema e audiovisual"
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"conta Smyrnova, em conversa com a BBC News Brasil."
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Transparency about original publication
Quote attributionLogical Coherence
Internal consistency of claims, absence of contradictions and unsupported causation
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Article maintains consistent narrative and logical flow without contradictions.
Logic Issues Detected
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Contradiction (high)
Conflicting values for 'the': 2005 vs 36
"Heuristic: Values conflict between P2 and P5"
Core Claims & Their Sources
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"Kleber Mendonça Filho's early short film 'Vinil Verde' was inspired by a Soviet urban legend"
Source: Direct statements from filmmaker Kleber Mendonça Filho and co-creator Bohdana Smyrnova Primary
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"The film marked Mendonça's first international success and Cannes selection"
Source: Filmmaker's statements and festival records Primary
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"The film explores themes of generational relationships and loss"
Source: Analysis from collaborators and academic experts Named secondary
Logic Model Inspector
Inconsistencies FoundExtracted Propositions (8)
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P1
""Vinil Verde" was made in 2003 and released in 2004"
Factual -
P2
"The film was selected for Cannes' Directors' Fortnight in 2005"
Factual In contradiction -
P3
"The film won awards at festivals in Brasília and Recife"
Factual -
P4
"Bohdana Smyrnova introduced Mendonça to the Soviet urban legend"
Factual -
P5
"The film was made with six rolls of 36-exposure color film"
Factual In contradiction -
P6
"Smyrnova's introduction of Slavic horror stories causes Mendonça's interest in adapting the green vinyl legend"
Causal -
P7
"Mendonça's personal loss of his mother causes deeper understanding of the film's themes of absence"
Causal -
P8
"Soviet music restrictions causes creation of x-ray record bootlegs by stilyagi"
Causal
Claim Relationships Graph
Detected Contradictions (1)
View Formal Logic Representation
=== Propositions === P1 [factual]: "Vinil Verde" was made in 2003 and released in 2004 P2 [factual]: The film was selected for Cannes' Directors' Fortnight in 2005 P3 [factual]: The film won awards at festivals in Brasília and Recife P4 [factual]: Bohdana Smyrnova introduced Mendonça to the Soviet urban legend P5 [factual]: The film was made with six rolls of 36-exposure color film P6 [causal]: Smyrnova's introduction of Slavic horror stories causes Mendonça's interest in adapting the green vinyl legend P7 [causal]: Mendonça's personal loss of his mother causes deeper understanding of the film's themes of absence P8 [causal]: Soviet music restrictions causes creation of x-ray record bootlegs by stilyagi === Constraints === P2 contradicts P5 Note: Conflicting values for 'the': 2005 vs 36 === Causal Graph === smyrnovas introduction of slavic horror stories -> mendonças interest in adapting the green vinyl legend mendonças personal loss of his mother -> deeper understanding of the films themes of absence soviet music restrictions -> creation of xray record bootlegs by stilyagi === Detected Contradictions === UNSAT: P2 AND P5 Proof: Heuristic: Values conflict between P2 and P5