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Por que o Brasil vai em peso ao SXSW? Executiva do festival há 27 anos explica

exame.com By Juliana Pio 2026-03-15 1430 words
Tracy Mann, responsável pelo International Business Development para o Brasil no South by Southwest, trabalha pelo festival há 27 anos e acompanha de perto o crescimento da delegação brasileira no evento (SXSW/Divulgação)

Juliana Pio

Editora-assistente de Marketing e Projetos Especiais

Publicado em 15 de março de 2026 às 06h00.

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AUSTIN — Há 27 anos, Tracy Mann trabalha no South by Southwest. Começou como assessora da música internacional apresentada no festival e, há pouco mais de uma década, ganhou um novo papel: ser a ponte entre o evento e o Brasil. O motivo? Os fundadores perceberam que havia um ecossistema brasileiro consolidado frequentando o SXSW, e que valia a pena aproximar ainda mais essa relação. Hoje, responsável pelo desenvolvimento de negócios internacionais do evento no Brasil, ela acompanha cada edição com um olhar especialmente voltado para a delegação brasileira.

Esta edição chega em um cenário de incertezas, políticas, econômicas e logísticas. O centro de convenções de Austin está em obras, o formato mudou, as datas foram reduzidas e o clima político nos Estados Unidos pressiona até mesmo grandes nomes da tecnologia a adotarem posturas mais conservadoras. Ainda assim, Tracy é enfática: o Brasil segura o tranco.

"Eu fico grata", diz, ao comentar que a presença brasileira caiu apenas marginalmente, de 2.600 inscritos no ano passado para cerca de 2.500 neste ano, enquanto praticamente todos os outros países registraram quedas muito mais acentuadas.

Para ela, isso não é coincidência. O brasileiro, na sua visão, carrega no DNA algo que o próprio SXSW persegue: a capacidade de entender que cultura e tecnologia juntas podem melhorar a sociedade e as conexões humanas. "O Brasil sempre traz um pouco dessa humanidade que talvez o americano, focado em tecnologia e em dinheiro, esqueça", afirma. Acompanhe a entrevista.

Trabalho no South by Southwest há 27 anos e faço parte da organização. Comecei como assessora da música internacional que a gente apresentava na época. Uns dez anos atrás, um pouco mais, eles me deram esse papel de ser quase uma embaixadora para o Brasil, porque os fundadores reconheceram que já havia um ecossistema brasileiro frequentando o evento e queriam aproximar ainda mais essa relação. Então me deram esse trabalho porque eu já falava português, já morei no Brasil, em Salvador, e já tinha meus contatos.

De certa forma, o SXSW sempre repete a mesma pauta em termos de fomentar criatividade e conexões entre as pessoas. Isso é uma base do nosso evento: reunir gente muito variada, com interesses diferentes, para ver o que pode surgir desses encontros. Este ano, a inteligência artificial continua sendo uma pauta muito forte, mas as conexões humanas e as novas formas de as pessoas se cuidarem, como os temas de wellness no trabalho, aparecem junto com as tendências tecnológicas, para que a gente não fique tão grudado na tecnologia e esqueça a parte humana. Juntar os dois é muito importante para nós.

Sendo franca, não sei se gosto dessa mudança ainda. Vamos testar e ver como funciona. A ideia era que quem não escolhesse a experiência Platinum — ou seja, acesso a tudo — ficaria mais junto com a sua tribo: na área de tecnologia e inovação, ou na música, ou no cinema. Assim a cidade fica dividida em bairros. Austin é uma cidade pequena, não são bairros distantes como em São Paulo, mas mesmo assim há uma certa separação entre esses pilares.

Quanto ao centro de convenções, hoje é um buraco. Mas acho bom. Talvez eu esteja na minoria, mas os eventos mundiais estão mudando.

Aquele padrão de fazer evento dentro de centros de convenções me parece muito careta, ainda mais numa cidade como Austin, onde o bom do SXSW é justamente o encontro inesperado.

Aquele padrão de fazer evento dentro de centros de convenções me parece muito careta, ainda mais numa cidade como Austin, onde o bom do SXSW é justamente o encontro inesperado.

O brasileiro é maravilhoso, como fico grata. O número de inscritos reduziu muito pouco. Fiz uma pesquisa e vi que em 2024 tivemos 2.600 inscritos e este ano chegamos a cerca de 2.500. Acho isso uma grande conquista, ainda mais quando você analisa os números de outros países, que estão muito baixos em comparação com o ano passado, inclusive entre os próprios americanos.

Olha, o mundo está passando por um momento de muita incerteza e isso influencia. O evento também mudou e talvez a gente não tenha explicado bem como seria o novo SXSW. Então está todo mundo curioso para entender se vai funcionar, se vai ser legal. Acho isso normal. Mas o cenário político também pesa para todos nós e isso é uma dor.

Estou vendo uma participação brasileira diferente. Não só a SP House, que sempre tem uma presença grande na cidade, mas agora também a Casa Minas, com uma turma muito interessante, e uma ação menor, mas igualmente relevante, do Rio Grande do Sul. Fico muito feliz de ver esses movimentos dos estados. Depois de trabalhar com o Brasil há mais de vinte anos, é muito interessante ver estados e cidades assumindo um papel que, no passado, era mais da ApexBrasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos). O Brasil vai dominar. São mais de 40 brasileiros palestrantes.

Sim, teve um tiroteio num bar aqui na 6th Street e alguns jovens morreram. Austin já tem uma segurança estabelecida. É uma cidade onde você pode andar com a arma na mão. Mas depois disso acontecer, a gente fez mais reuniões ainda com a cidade de Austin e com a polícia, e tomamos providências mais assertivas para proteger quem vem agora.

Estou muito animada com uma conversa que acontece no domingo com um jovem palestino que foi preso pelo governo americano. Ele não pode vir para cá, não pode viajar, mas vai participar de forma virtual com um jornalista daqui. Esses momentos tendem a ter grande repercussão. Sei disso porque a reserva desse painel lotou em um minuto. Por outro lado, estamos sentindo muita pressão da onda política atual nos Estados Unidos. Mesmo grandes empresas de tecnologia, que sempre foram apoiadoras fortes do SXSW, estão adotando posições mais conservadoras e evitando temas considerados woke. Então precisamos equilibrar isso para entender para onde o vento vai.

Eu adoraria que vocês viessem no ano que vem, porque vão aproveitar tudo o que estamos aprendendo agora. O que funcionou, o que não funcionou, o que decidimos mudar — tudo isso já estará resolvido. Para quem está aqui este ano, espero que os encontros nas ruas, as clubhouses temáticas de cinema, música e inovação permitam conexões mais profundas. Nos anos anteriores, talvez as pessoas ficassem muito concentradas no centro de convenções. Agora elas são quase forçadas a circular pela cidade e viver Austin. Acho que esse será o grande takeaway desta edição.

O brasileiro tem o DNA do South by Southwest, é algo muito curioso. O brasileiro entende como essa mistura é boa, como cultura e tecnologia juntas podem melhorar a sociedade e as conexões humanas. O Brasil sempre traz um pouco dessa humanidade que talvez o americano, no dia a dia focado em tecnologia e dinheiro, esqueça. E traz também emoção e entusiasmo para o evento. É muito legal.

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