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Favelas quase triplicam nos últimos 40 anos em Manaus

acritica.com By Daniel Brandão 2026-03-14 1058 words
Urbanismo

Falta de planejamento e pobreza empurram manauaras para fundos de vales e margens
de igarapés

Daniel Brandão

14/03/2026 às 07:49.

Manaus lidera o crescimento de áreas urbanizadas em favelas (Foto: Jeiza Russo)

"Eu moro aqui há quarenta anos. Quando eu cheguei, só havia uma estrada. Eu vi esse bairro crescendo, mas pouco evoluindo", o relato é do aposentado Lizandro Souza, o "Seu Luis", de 62 anos, um dos primeiros moradores do bairro Distrito Industrial 2, zona Leste de Manaus. O morador traduz em experiência pessoal a nuance de milhares de famílias amazonenses, que viram a cidade crescer e se expandir de forma acelerada e desordenada, sendo obrigadas a ocupar áreas de risco, insalubres e sem acesso a políticas públicas básicas.

Um estudo publicado pela rede MapBiomas Brasil revela que Manaus lidera o ranking nacional de áreas urbanizadas em favelas tanto em 1985 quanto em 2024. Nesse período, a capital amazonense registrou um crescimento de 2,6 vezes na ocupação dessas comunidades, evidenciando como o avanço urbano se deu de forma desigual e sem planejamento.

Em entrevista ao A CRÍTICA, o doutor Marcos Castro, professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), destaca que a favela se tornou um termo geral sinônimo de ocupações irregulares, isto é, áreas de ocupação não precedidas de planejamento urbanístico.

"São áreas de ocupações irregulares, que são ocupadas por um segmento que não está inserido no setor formal da moradia. Ou seja, aquelas que não possuem condição econômica e também são resultado de ausência de políticas públicas de moradia estruturais. Então, a favela é um retrato, é uma expressão da desigualdade urbana e socioeconômica, hoje", explicou o professor.

Maria Oliveira dos Santos, moradora da 4ª etapa do Jorge Teixeira desde a década de 1990

Moradora da 4ª etapa do bairro Jorge Teixeira, desde a década de 1990, dona Maria Oliveira dos Santos, de 57 anos, conta que muitos bairros da zona Leste de Manaus surgiram a partir de ocupações irregulares e, até os dias atuais, estão localizados em áreas de risco.

"Tem muitas pessoas que ainda moram em áreas de risco. Nesta área muitos bairros começaram como "invasões". Eu moro aqui há mais de 30 anos. Vi esse bairro crescer, mas no começo não tinha nada disso (políticas públicas). Quando eu cheguei era apenas o loteamento no barro. E o Jorge Teixeira não foi um bairro planejado. Ele se desenvolveu, mas não foi planejado", lembrou dona Maria.

Favelas nas cidades amazônicas

De acordo com o estudo, as áreas de favelas que se encontram em terrenos de alta declividade ocupavam 2.266 hectares em 1985, enquanto em 2024 esse número quase que triplicou, chegando a 5.704 hectares – um aumento de mais de 150% (3.438 hectares). Diferentemente das outras regiões brasileiras, as favelas nas cidades amazônicas são definidas, principalmente, pela geografia do relevo.

Geógrafo
Marcos Castro aponta como uma das causas da favelização de Manaus a falta de políticas públicas

"Por exemplo, no Rio de Janeiro, as favelas estão para cima, nos morros. Em Manaus, muitas vezes as ocupações estão para baixo, nos fundos de vales, está às margens de igarapés. Então, o relevo é diferenciado. O tônus é o mesmo. É a desigualdade que gera a ocupação de áreas irregulares e não precedidas de planejamento urbanístico", salientou o professor.

O estudo revela ainda que as áreas de favelas em áreas a menos de 3 metros de distância vertical de áreas de drenagem ou corpos aquáticos cresceram. O aumento foi de mais de 200% entre 1985 e 2024 (+30.160 hectares). Em 1985 eram 15.847 hectares; em 2024, 45 mil hectares.

"Geralmente as favelas estão em áreas impróprias para a ocupação humana, que depois são convertidas justamente por essa ocupação em áreas de risco. Existe uma semelhança e essa semelhança é a pobreza urbana, é a área imprópria de ocupação, é a não precedência de urbanismo", ressaltou Castro.

Impacto

"Hoje já tem casinhas de alvenaria, mas antes era tudo de madeira ou barracos de papelão. Como o Jorge Teixeira não foi planejado, temos muitos problemas como lixo em locais impróprios, alagamentos, desmoronamentos, pois é uma área de risco. Onde eu moro, hoje temos uma pequena horta, mas antes era uma área de invasão", contou dona Maria.

Embora o estudo exponha ainda que São Paulo é a metrópole que possui a maior concentração de área urbanizada em favelas (com 11,8 mil hectares), Manaus e Belém são consideradas menores, no entanto representam mais de um terço de toda a área urbanizada desses municípios, com 11,4 e 11,3 mil hectares, respectivamente.

"Nós temos o Estado como regulador e os grupos excluídos, que são justamente aqueles que geram a expressão da favelização. Não adianta tratar o pobre como culpado desse processo, pois a pobreza urbana é um fenômeno que gera tudo isso. A pobreza gera o pobre, e se o pobre vai ocupar a área de risco, a área de igarapé, é porque também quer morar como qualquer pessoa", ressaltou o professor.

Políticas públicas

Para o professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), doutor Marcos Castro, a problemática da favelização não depende somente de pesquisas científicas, mas, principalmente, de que as políticas sejam implementadas.

"Primeiro, a questão de equacionar a renda. Enquanto nós não equilibrarmos a renda e as distorções, nós não teremos um cenário diferente da mansão milionária e do casebre convivendo na mesma cidade. Os nossos problemas não são faltas de ideias, não são faltas de soluções, são faltas de implementação política para minimizar esses problemas", salientou Castro.

Resolver a problemática do crescimento desordenado e da favelização em Manaus torna-se uma questão complexa, mas que não é impossível de superar, que o professor Marcos Castro inicia pela eliminação da desigualdade social e de renda.

"Nós devemos sempre aprender com o nosso passado. O melhor crescimento seria aquele planejado… Fazer uma proposta de zoneamento. Esse zoneamento tem que ser não só econômico, mas ecológico também. Crescer protegendo nossas nascentes de igarapés, crescer não desmatando de forma indiscriminada, como nós fizemos", concluiu o professor.

"Enquanto nós não corrigirmos as nossas feridas, nós vamos ter uma cidade desigual como nós temos. E a favelização é o maior sintoma disso", Marcos Castro, doutor em Geografia Urbana e professor da Ufam.

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