B
25/30
Good

O homem que se perdeu em um labirinto e saiu de lá com um livro fabuloso | Conta-Gotas

veja.abril.com.br By Diogo Sponchiato 2026-03-13 1320 words
O homem que se perdeu em um labirinto e saiu de lá com um livro fabuloso

Uma entrevista com o arquiteto e escritor Francesco Perrotta-Bosch, que retraça a história dos labirintos numa obra que vai da Antiguidade ao século XXI

Duas frases colocaram o ítalo-brasileiro Francesco Perrotta-Bosch em meio a uma sucessão de labirintos. A primeira, do historiador da arte francês Yve-Alain Bois, é uma pergunta: "Não seria Dédalo o santo padroeiro da arquitetura?" O Dédalo a que ele se refere é o personagem que planejou o lendário labirinto de Creta, onde foi aprisionado o monstruoso Minotauro.

A segunda passagem vem do pensador também francês Georges Bataille: "Basta seguir, por pouco tempo, os rastros dos repetidos circuitos das palavras para descobrir, numa visão desconcertante, a estrutura labiríntica do ser humano".

Pronto: enfeitiçado por essas ideias, o arquiteto e escritor decidiu caminhar por labirintos imaginários e reais em sua longa pesquisa para o doutorado, que culminaria, anos depois, no fascinante O Livro dos Labirintos, recém-publicado pela Editora WMF Martins Fontes.

A obra reconstrói quatro milênios de história. Dá seus primeiros passos com o labirinto do Minotauro no alvorecer da civilização grega e, entre tantas veredas que se bifurcam no tempo – para usar a expressão de um amante de labirintos citado em suas páginas, o escritor argentino Jorge Luis Borges -, se encerra nos atordoantes corredores de shopping centers e aeroportos, os dédalos do século XXI.

O Livro dos Labirintos

Em entrevista exclusiva, o autor de O Livro dos Labirintos conta os bastidores e os aprendizados desse percurso, bem como sua experiência pessoal entre cercas vivas de uma estrutura erigida na Itália no século XVIII. Com a palavra, Francesco Perrotta-Bosch.

Qual foi o insight que o levou a investigar os labirintos no doutorado, culminando com o livro anos depois? O estalo foi proveniente de duas leituras da época em que eu estava concluindo o mestrado. Quando li uma entrevista concedida por Yve-Alain Bois, uma das suas respostas continha uma pergunta retórica: "Não seria Dédalo o santo padroeiro da arquitetura?" Primeiro me chamou a atenção, pois Dédalo é um personagem de mitos helênicos cuja vida teria ocorrido mais de um século antes de Cristo – e o historiador de arte curiosamente mesclou a lenda a algo próprio ao catolicismo. Desse estranhamento me dei conta que, de acordo com a mitologia grega, Dédalo seria o primeiro arquiteto da humanidade e o Labirinto de Creta, o primeiro projeto arquitetônico.

E a outra leitura? Na mesma época de pesquisa acadêmica, em 2016, eu estava lendo Georges Bataille e fiquei fascinado pelo seu artigo intitulado "O Labirinto", sobretudo com a frase: "Basta seguir, por pouco tempo, os rastros dos repetidos circuitos das palavras para descobrir, numa visão desconcertante, a estrutura labiríntica do ser humano." Naquele momento, eu soube que o labirinto seria a estrutura que me permitiria estudar a gênese e a essência da arquitetura, bem como se tornaria o tema do meu doutorado e deste livro que, certamente, é minha principal obra como pesquisador.

Entre tantos labirintos que você explora no livro – seja aqueles transpostos ao papel, seja aqueles erigidos na paisagem real –, há algum que mais o fascina? Qual seria seu labirinto predileto, digamos assim? Meu labirinto predileto é o da Villa Barbarigo, em Valsanzibio, na região do Vêneto, na Itália. Por suas dimensões e características físicas, é um labirinto de cercas vivas que permite uma experiência plena de desorientação ao estar no seu interior. Ele foi principal objeto de estudo do meu doutorado, e eu fiz um trabalho de correção da sua datação e procedência. Acreditava-se que teria sido feito no final do século XVII por encomenda de um bispo católico que veio a se tornar santo, São Gregório Barbarigo. Por meio de uma extensa documentação consultada em bibliotecas e arquivos históricos de Veneza, demonstrei que o labirinto é posterior, da segunda metade do século XVIII, nas últimas décadas de existência da Sereníssima República de Veneza e fruto da encomenda de duas mulheres de fascinantes biografias – a mãe Caterina Sagredo Barbarigo ou a filha Contarina Barbarigo.

Se pudesse resumir numa frase, qual é a principal sensação de estar no meio de um labirinto, como aqueles pelos quais caminhou na Itália? Estar dentro do labirinto é a experiência da desorientação. Quando estamos em um corredor do labirinto da Villa Barbarigo, por exemplo, perdem-se as referências geográficas em relação ao mundo ao redor, suprime-se a noção de profundidade e vivencia-se a plena disjunção entre o estar dentro e o estar fora.

O que você encontrou ao fim do labirinto de mitos, ideias, concepções e realizações que se materializa na jornada do seu livro? Estudar e ler sobre labirintos permite ter contato com inúmeros períodos históricos da humanidade. Nós vivenciamos uma era da instantaneidade das informações e dos desejos. Frequentemente, o presente nos soterra. Os labirintos, de certo modo, restituem a dimensão temporal da existência humana – algo frequentemente negligenciado pelo ser contemporâneo. Os labirintos demonstram o fascínio e a variedade de épocas e lugares muito distantes dos nossos, nos colocam em contato com imagens, histórias, mitos e vidas muito mais interessantes do que a próxima imagem fugaz que aparecerá no feed do Instagram.

E o que você ainda não encontrou nessa jornada? Com a pesquisa de doutorado e a escrita de O Livro dos Labirintos, encontrei algumas respostas para a pergunta "O que é arquitetura?" Mas não encontrei – nem existirá – uma resposta única e definitiva, embora o labirinto permita compreender certos fundamentos e princípios atemporais da arquitetura.

Um labirinto de consumo ou controle: no final, esse seria o fim ao qual os labirintos estão condenados? Fato é que a experiência do labirinto é vivenciada na contemporaneidade em shopping centers e áreas de embarque e desembarque de aeroportos internacionais. Não sei se isso é uma condenação, mas, caso assim seja, não é uma condenação perpétua. Como Bataille preconizou, a labirinto é intrínseco à condição humana e ressurgirá em outras condições, lugares e épocas, por mais que a nossa educação iluminista tente anular as características do labirinto quando ambicionamos racionalizar e ordenar todo o conhecimento. É o que defendo na frase final e conclusiva do livro: "Conscientemente ou não, nitidamente ou não, intencionalmente ou não, o labirinto emergirá seja qual for o espírito da época."

Frequentemente o labirinto é evocado para representar a internet e seu fluxo ininterrupto de informações. Acredita que a história do labirinto continua nas dimensões digitais? É possível interpretar o trabalho de um programador da web como o de criação de estruturas labirínticas virtuais. Mesmo tantos organogramas, tão complexos, podem aparentar ser labirintos. Certo é que a digitalização do labirinto é um fenômeno em curso. Porém, não me parece ainda claro como emergirão esses "labirintos virtuais" de forma estrutural ou mais perene. Será preciso esperar uma década ou mais de desenvolvimento tecnológico para fazer uma análise mais séria dessa correspondência entre o labirinto e o mundo virtual. Há alguns fenômenos digitais correlatos, como "The Backrooms", nos quais vale prestar atenção, mas eles poderão ser compreendidos como insignificantes em pouco tempo.

Às vezes parece que o passado do labirinto é mais interessante que seu futuro… Para O Livro dos Labirintos, eu decidi conscientemente não apresentar essa dimensão virtual, porque é uma publicação que abrange um arcabouço histórico de quatro milênios. Almejei escrever algo relevante para leitores de 2026 e para, quem sabe, esporádicos pesquisadores que virão a ter contato com o livro daqui a algumas décadas, quiçá um século. E, sinceramente, desconfio que aquilo que certas pessoas caracterizam como "labirintos virtuais" de hoje será irrelevante em apenas cinco anos.

EM ALTA

1A revolta de brasileiros após derrota de 'O Agente Secreto' no Oscar 2026

2Os rumores por trás da ausência de Sean Penn no Oscar 2026

3Timothée Chalamet vira chacota na abertura da cerimônia do Oscar 2026

4O visual exótico de Demi Moore no Oscar 2026

5Anne Hathaway e Anna Wintour recriam 'O Diabo Veste Prada' no Oscar 2026

Tap highlighted text for details

Source Quality
Perspective
Context
Neutrality
Transparency
Logic