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‘O mercado da arte é uma armadilha para o artista’ - Nexo Jornal

nexojornal.com.br By Anna Ortega 2026-03-15 1609 words
O artista Gervane de Paula nasceu umbigado no sol mais amarelo do Brasil. O ardente do céu, a cromática vibrante e a fauna feroz do Cerrado fundaram uma produção artística que toma o próprio território como sujeito de criação. Há mais de quatro décadas, o pintor mato-grossense se comove pelos híbridos que lhe são familiares desde o nascimento:

O híbrido entre cerrado, mangue e pantanal; a mistura entre animal e humano; a séria denúncia e o excelentíssimo bom-humor. O pintor e escultor é habilidoso em produzir mensagens sobre o seu próprio tempo. Em entrevista ao Nonada Jornalismo, o artista revela o seu processo de ateliê, em Cuiabá (MT), lugar onde começa a dar forma a um trabalho marcadamente multidisciplinar, baseado na pintura e na experimentação, mas que escorre à escultura, à instalação, ao desenho e à performance.

É no Boca de Arte, como chama seu espaço de trabalho, onde ele começa a brincar e jogar com diferentes temas, desde os limites entre o bicho e o homem até o autoritarismo vigente no Brasil. Para o artista, "a obra dentro do ateliê é perigosa", já que enquanto não sai dali, ele segue em um processo contínuo de envolvimento com elas. "É como um jogo. Eu vou conversando com as obras e procurando o que elas próprias sugerem até a obra se concluir", revela. Se dentro do ateliê é perigosa, fora também é. As onças rugem e os tatu-bolas espetam.

O chão terroso e o céu amarelado do lugar onde nasceu são referências que o pintor toma para si até hoje. Autodidata, ele detalha que suas influências maiores foram artistas de seu próprio lugar de origem, não só pela estética ou produção artística, mas por serem pintores com que aprendeu que a arte é também política. Nomes como Humberto Espíndola, João Sebastião e Dalva de Barros foram decisivos para sua trajetória artística. Nos últimos anos, integrou exposições importantes como a retrospectiva do seu trabalho na Pinacoteca de São Paulo, em 2024, intitulada Como é bom viver em Mato Grosso, e a 14ª Bienal do Mercosul, em 2025, estalo.

Gervane de Paula cria a partir de um humor, afiado, feroz e gracioso, como são os bichos que retrata. A produção do artista é corajosa ao estampar e escancarar críticas sobre o Brasil, sobre a questão fundiária e sobre o próprio sistema em que está inserido: o Mercado da Arte. "Colorista notável", como ele diz em referência ao papel da paleta cromática do Cerrado em seu trabalho, ele recusa uma romantização do fazer artístico.

"Alguns falam que a arte salva, e concordo, sem dúvida. Mas fazer arte também é um processo bastante doloroso. Não só fazer, mas tentar viver dela também", pontua. "Sou uma pessoa que olha com desconfiança para a ideia de que a minha arte pode me mudar alguma coisa. Eu entendo que estou fazendo o meu papel. Com ela, eu posso existir, sentir e me localizar no mundo."

O artista destaca, nas palavras e nas obras, a invisibilidade histórica sistematizada por curadorias brancas. Ele também afirma que seu trabalho só começou a despontar no Brasil quando curadores jovens e negros assumiram lugares de protagonismo no cenário. Um dos destaques é sua presença na 36ª Bienal de São Paulo, Nem todo viandante anda estradas: Da Humanidade como Prática, apresentando uma instalação que vibrava em cor no segundo andar do Pavilhão. Arte aqui eu mato, falam várias das obras do artista. "Arte aqui eu mato", diz Gervane nesta entrevista.

Os animais do cerrado são protagonistas da sua produção artística, mas tem um que, em especial, costuma aparecer com ênfase: a onça. O que é a onça para você?

Gervane de Paula Para mim, enquanto artista, o que é interessante, antes de qualquer significado, é a questão da estética, da cor, da forma. Ela é, sem dúvida, um objeto, um animal bastante interessante. Historicamente, é um animal guerreiro, que representa uma resistência dentro do Pantanal.

Aqui em Mato Grosso, ela também assume esse mesmo papel. Ela aparece nas minhas obras, às vezes fazendo parte de algum objeto, em outras, sendo o elemento principal. Todos os animais que pertencem ao nosso ecossistema estão presentes no meu trabalho. Talvez a onça tenha mais atenção pelo fato de ela ter esse aspecto de ser um animal feroz, de ter uma boca aberta e também de oferecer um certo perigo.

E esse interesse pela fauna surgiu quando na vida do senhor? Os animais sempre lhe despertaram uma maior atenção e curiosidade?

Gervane de Paula Sim, outros artistas também trabalham o tema. O João Sebastião foi um pintor que não existe mais, mas que usou a onça praticamente como um único tema da pintura dele, né?

Na minha pintura, a onça apareceu pela primeira vez só através da pele dela, sendo carregada por um piabá, um peão de fazenda, aqui em Mato Grosso. Com a expansão das fazendas, da introdução maior de gás dentro do habitat aqui do Pantanal, as onças começaram a chegar perto das fazendas e começaram a comer, matar, abater os animais, principalmente os viveiros.

Elas também começaram a ser perseguidas pelos fazendeiros. A minha obra que chamou mais a atenção é essa que aparece, a onça sendo carregada, morta, em que vemos a pele dela na porta de uma fazenda. Tem um texto que acompanha a obra: Arte aqui eu mato. Esse texto, na verdade, não tem origem exatamente nessa cena, mas em um livro de arte de uma crítica aqui de Mato Grosso, que se chamaArte Aqui é Mato [publicado em 1990, pela editora da UFMT, escrito por Aline Figueredo]. E eu, em meu caso, escrevo: Arte aqui eu mato.

Só que o Arte aqui eu mato, com o tempo, foi ganhando vários significados no trabalho. Eu comecei fazendo por esse motivo, porque não se valoriza a arte. Esse é o assunto que realmente perdurou no significado dessa obra. A gente faz uma coisa pensando em passar uma mensagem e ela ganha outras interpretações — o que eu acho bastante interessante.

É interessante porque essa frase se torna também uma das marcas do que você faz, uma força que comunica as diferentes frentes temáticas e críticas que a sua obra suscita através dos diferentes suportes — a pintura, como um certo centro, mas também o desenho, a palavra, a escultura, a instalação. E eu gostaria de saber do senhor o que vem primeiro no seu processo. Como é a ordem do seu pensamento?

Gervane de Paula Olha, eu comecei a pintar muito cedo, aos 17 anos. Sou um pintor que gosta muito de cores. Sou um colorista notável. Às vezes, um assunto vira pintura, vira objeto e vira desenho também, ao mesmo tempo. Às vezes, só mesmo um objeto.Eu não sou um artista que gosta de fazer esboço. Se eu fizer um esboço, para mim, quando eu acabo, a obra já está praticamente pronta.

Então, minhas obras têm um processo que é como o de um jogo. Eu vou colocando as coisas, vou conversando com elas, vou procurando o que elas próprias sugerem até a obra se concluir. Às vezes, eu volto a mexer em uma obra que foi exectuada há muitos anos. Muitas vezes, é até interessante que essa obra saia do ateliê, porque é perigoso eu continuar terminando ela. Eu acho que ela não tem fim, pelo menos nos objetos, nas esculturas, eu mexo constantemente.

As suas obras sugerem coisas. Como é isso?

Gervane de Paula Sempre a obra sugere alguma coisa. Ela mesma pede pra que eu mexa, que eu inspire alguma coisa nova nela, ou então para que eu retire alguma outra coisa. Eu acrescento e, ao mesmo tempo, também insiro coisas novas na obra. A obra dentro do ateliê é perigosa [Gervane imita um som de rugido: roarrrr].

Falando em perigo, você costuma afirmar que a arte é, ou pode ser, uma espécie de armadilha. Poderia comentar mais sobre essa perspectiva?

Gervane de Paula Fazer arte é muito legal, é muito bom, eu gosto muito. Eu acho que eu não sei o que eu faria sem ela. Mas, ao mesmo tempo, tem o momento em que você termina a arte e ela começa a circular dentro do Sistema da Arte, do mercado, das exposições, dos curadores, dos críticos de arte. As obras viram problemas bastante graves em relação ao artista e ao meio artístico, principalmente falando sobre a questão do mercado. Esse é um lugar muito difícil, muito dolorido para você mexer com ele. É uma armadilha para o artista.

Talvez você esteja falando de uma obra que eu produzi que tem partes. O título dela é: Armadilha para pegar estudantes. De um lado, você tem vários nomes de curadores, críticos de arte; do outro lado tem alguma coisa relacionada a mim; e do outro tem vários sinais de bala, de um alvo de bala.

Alguns falam que a arte salva, e concordo, sem dúvida. Mas fazer arte também é um processo bastante doloroso. Não só fazer, mas tentar viver dela também. Antes eu pensava que isso era questão da minha cidade, que é uma cidade bastante pequena [Cuiabá], de 700 mil habitantes, distante dos grandes centros culturais. Só que agora que eu tenho uma projeção maior, eu vejo que o processo é o mesmo. É um sistema bastante complexo para você circular seu trabalho. Mas é isso, enquanto não enquanto não houver outra coisa mais interessante, eu vou continuar fazendo arte.

Essa questão do território é muito importante mesmo. Suas obras sempre foram muito enraizadas no centro-oeste. O senhor acredita que o cenário mudou para artistas, por exemplo, emergentes hoje na região, em comparação com o que o senhor viveu nos anos 80, 90? É diferente agora?

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