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De 50 pontos a zero: cresce ceticismo sobre cortes na Selic

exame.com By Mitchel Diniz 2026-03-17 774 words
Copom: mudança de rota (Arthur Menescal/Bloomberg/Getty Images)

Publicado em 17 de março de 2026 às 05h00.

Às vésperas da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que começa nesta terça-feira, 18, o mercado financeiro já não parece tão convicto de que chegou a hora de cortar os juros no Brasil. O que até poucas semanas atrás era tratado quase como consenso — uma redução de 0,50 ponto percentual na taxa Selic — transformou-se em um cenário cercado de dúvidas.

A principal razão para a mudança de humor está fora do país: a escalada do conflito no Oriente Médio, que levou o preço do petróleo de volta à casa dos US$ 100 o barril e reacendeu temores inflacionários no mundo todo.

A virada mais emblemática veio da XP Investimentos. A casa, que até recentemente apostava em um corte de 0,50 ponto percentual, revisou radicalmente sua projeção e passou a prever que o Banco Central manterá a Selic em 15% ao ano nesta reunião.

Segundo a equipe liderada pelo economista-chefe Caio Megale, a disparada do petróleo alterou de forma relevante o balanço de riscos para a inflação. Desde a última reunião do Copom, em janeiro, o barril do tipo Brent avançou cerca de 60%, elevando o custo de combustíveis, transporte e insumos industriais — um choque que pode contaminar a inflação doméstica.

Além disso, a economia brasileira voltou a mostrar sinais de força. O desemprego permanece em mínimas históricas, o crédito continua avançando e o consumo das famílias segue resiliente. A XP estima que o PIB do primeiro trimestre de 2026 tenha crescido a um ritmo anualizado de 4%, bem acima do que se esperava no início do ano.

Nesse ambiente, iniciar o ciclo de cortes agora poderia parecer precipitado. Para os economistas da casa, se o Copom não estiver plenamente confiante em um corte de 0,50 ponto percentual, a alternativa mais prudente seria simplesmente adiar o movimento.

"O melhor é esperar e cortar com mais embasamento em abril", afirma o relatório.

Outras instituições também revisaram suas apostas, mas em direção um pouco menos drástica. Em vez de cancelar o início do ciclo de queda de juros, alguns bancos passaram a prever um corte menor, de apenas 0,25 ponto percentual.

O Itaú BBA e o BNP Paribas estão entre os que adotaram esse cenário intermediário. Em relatórios recentes, os economistas dessas instituições argumentam que o salto do petróleo aumenta a incerteza global e eleva o risco inflacionário, exigindo mais cautela do Banco Central.

A lógica é simples: combustíveis mais caros tendem a pressionar custos logísticos e preços de alimentos, além de afetar expectativas de inflação.

A deterioração já começou a aparecer nas projeções do mercado. No relatório Focus divulgado pelo Banco Central nesta segunda-feira, a estimativa para o IPCA de 2026 subiu de 3,91% para 4,10%. Ao mesmo tempo, a previsão para a Selic no fim deste ano avançou de 12,13% para 12,25%.

Mesmo assim, parte dos economistas ainda acredita que o Copom deve dar o primeiro passo do ciclo de afrouxamento monetário.

Essa é, por exemplo, a avaliação do Bank of America. Em relatório divulgado nesta semana, o banco reduziu sua previsão de corte inicial de 0,50 para 0,25 ponto percentual, citando a escalada das tensões geopolíticas e a volatilidade no preço do petróleo.

Para os economistas da instituição, o choque de energia representa um risco para a inflação, mas tende a ser tratado pelo Banco Central como um fator exógeno — algo que afeta os preços no curto prazo, mas não necessariamente altera a tendência de médio prazo.

Mesmo com um corte de 0,25 ponto percentual, a política monetária brasileira permaneceria altamente restritiva. O Bank of America calcula que a taxa real ex-ante continuaria acima de 10%, bem superior à estimativa de juros neutros de cerca de 5,5%.

Nesse cenário, o ciclo de cortes poderia ganhar ritmo ao longo do ano.

Relatório do BTG Pactual vai na mesma direção. Para os economistas do banco, o choque recente do petróleo aumentou significativamente a incerteza para a política monetária e elevou o risco de desancoragem das expectativas de inflação.

A instituição avalia que, diante desse cenário, o início do ciclo de cortes deve ser mais conservador — provavelmente com uma redução de 25 pontos-base na reunião desta semana.

O banco também destaca que a magnitude do choque energético pode contaminar os núcleos de inflação e reforçar a chamada inflação inercial, especialmente se o petróleo permanecer próximo de US$ 100 por barril.

Ainda assim, os economistas do BTG consideram improvável que o Copom adie totalmente o início do ciclo, já que o Banco Central vinha sinalizando desde janeiro que começaria a flexibilizar a política monetária nesta reunião.

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