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Fernando N. da Costa: Monetização da Guerra Contemporânea

jornalggn.com.br By Fernando Nogueira da Costa 2026-03-16 1196 words
Monetização da Guerra Contemporânea

por Fernando Nogueira da Costa

No livro "As Big Techs e a Guerra Total: O Complexo Militar-Industrial-Dataficado" (2025), Sérgio Amadeu da Silveira informa: para a Inteligência Artificial (IA) montar uma "máquina de alvos", ela opera como um componente central de um novo "complexo militar-industrial-dataficado", onde a guerra é tratada como um problema de processamento de dados e estatística. O sistema não busca apenas identificar indivíduos específicos, mas sim prever comportamentos e classificar ameaças em larga escala.

O primeiro passo para uma máquina de alvos é a alimentação com volumes colossais de informação. As Forças Armadas matam pessoas com base em metadados de comunicações eletrônicas (quem ligou para quem, local, horário e duração). Eles permitem mapear rotinas e redes sociais completas sem a necessidade de ler o conteúdo das mensagens.

Empresas como Google, Amazon e Microsoft fornecem a infraestrutura de nuvem necessária para armazenar esses dados populacionais e treinar modelos de aprendizado profundo (deep learning). O sistema cruza interceptações de comunicações, imagens de satélite, dados de redes sociais, informações de inteligência e dados de operadores de telefonia.

A IA utiliza algoritmos estatísticos e probabilísticos para detectar padrões (formas de vida ou pattern of life) dessas bases de dados. Ela mapeia os hábitos diários e deslocamentos de indivíduos para definir seu envolvimento com inimigos e determinar o momento ideal para um ataque. Qualquer desvio dessa "norma" comportamental pode ser interpretado pelo algoritmo como uma anomalia suspeita.

Ataques de assinatura (signature strikes) é a escolha de um alvo com base em um padrão de comportamento, considerado "típico" de um combatente, mesmo se a identidade da pessoa for desconhecida. A estatística e a probabilidade substituem a certeza.

Em vigilância persistente, sistemas utilizam câmeras capazes de visualizar cidades inteiras, criando um "arquivo total" no qual as vidas tornam-se "pesquisáveis" retrospectivamente.

A implementação tática se dá via sistemas de recomendação de alvos. Essa linha de montagem de extermínio funciona, na prática, com um sistema de IA processador de dados, gerando listas de milhares de alvos humanos (suspeitos de militância), com base em um mecanismo estatístico. Oficiais relatam a máquina fazer isso "foscamente", facilitando a decisão de ataque à distância.

Além da IA voltada para recomendar edifícios e estruturas físicas como alvos militares, há sistema de rastreamento usado para seguir alvos até suas residências familiares antes de autorizar um bombardeio. Isso foi visto nos ataque dos Estados Unidos à Venezuela e ao Irã.

A montagem dessa máquina altera a lógica do conflito, movendo-o para a chamada "ética do caçador". Em total desumanização, o viés de automação leva agentes humanos tenderem a aceitar passivamente as decisões algorítmicas sob pressão, cedendo autoridade moral ao processamento de dados.

O campo de batalha é fragmentado em "caixas letais" (kill boxe) temporárias, onde a IA permite o uso da força sem coordenação direta com o comando central, transformando o corpo do inimigo no próprio campo de batalha. A automação permite linha de montagem de assassinatos. Aquilo antes levando meses, para uma equipe de inteligência humana, passa a ser feito em uma semana, criando uma verdadeira "fábrica de assassinatos em massa".

Em total desumanização, a IA monta uma máquina de alvos ao converter a vida cotidiana em representações matemáticas (vetores) e aplicar sobre elas uma racionalidade probabilística para autorizar a violência unilateral e preventiva.

O complexo militar-industrial-dataficado é um conceito cunhado pelo sociólogo Sérgio Amadeu da Silveira para descrever a evolução contemporânea do antigo complexo militar-industrial. Agora, foi redefinido pela simbiose entre as Big Techs, a infraestrutura de dados e a inteligência artificial.

Nesse novo arranjo, as grandes corporações de tecnologia deixaram de ser meras fornecedoras de produtos para se tornarem parte integrante do sistema de tomada de decisão das Forças Armadas.

Diferente das indústrias de armas tradicionais, empresas como Google, Amazon, Microsoft, Oracle e Palantir fornecem a inteligência e a memória da guerra moderna. Elas entregam a infraestrutura de nuvem. Através de contratos bilionários como o JWCC (EUA) e o Projeto Nimbus (Israel), as Big Techs fornecem o poder computacional necessário para gerir operações táticas em tempo real.

Nenhuma entidade estatal possui tantos dados sobre as populações globais quanto as Big Techs norte-americanas, tornando esses dados ativos estratégicos fundamentais para a defesa e vigilância. Sistemas automatizados utilizam algoritmos estatísticos e probabilísticos para classificar padrões e extrair informações de bases de dados gigantescas.

No complexo dataficado, a guerra é tratada como um problema de processamento de dados e estatística, movendo-se do combate tradicional para a caça ao homem militarizada.

O complexo militar-industrial-dataficado promove uma privatização das decisões de vida e morte, delegando autoridade moral ao processamento algorítmico. Além disso, reforça o neocolonialismo digital, onde o controle das infraestruturas de dados e chips permite os Estados Unidos e seus aliados exercerem poder sobre a soberania de outras nações.

Silveira (2025) caracteriza este complexo como uma "megamáquina" de vigilância e extermínio. Funde o capitalismo de vigilância com o militarismo digital, tornando a guerra um empreendimento tecnológico incessante, lucrativo e cada vez menos transparente.

A monetização da guerra contemporânea ocorre por meio da integração das Big Techs no chamado de complexo militar-industrial-dataficado. Nele, a gestão do conflito se torna uma unidade de negócios altamente lucrativa, baseada em dados e infraestrutura digital.

Diferente do antigo complexo industrial-militar, a lucratividade atual não vem apenas da venda de armas físicas, mas da prestação de serviços essenciais de tecnologia. As grandes corporações de tecnologia (Google, Amazon, Microsoft e Oracle) lucram através de contratos de infraestrutura capazes de sustentarem as operações militares modernas.

O Estado utiliza os gastos em defesa como uma forma de injetar capital massivo na economia privada. No cenário atual, essa dinâmica é redirecionada para o setor tecnológico, onde investimentos em IA e processamento de dados garantem a reprodução do capital das Big Techs sob a justificativa de segurança nacional.

No capitalismo de plataforma, os dados se converteram em um tipo específico de capital. A extração massiva de metadados e informações populacionais fornece o insumo necessário para treinar máquinas de alvos. Essa abundância de dados gera lucros ao permitir as empresas venderem não apenas produtos, mas a capacidade estatística de prever e neutralizar ameaças.

A automação da guerra através de drones e IA altera o cálculo econômico do conflito. Ao reduzir os custos políticos (menos soldados nacionais mortos) e econômicos (armas low cost em comparação a caças tradicionais), o limiar para o uso da força diminui.

A redução dos custos e dos riscos para o agressor tende a aumentar a demanda por ataques e bombardeios
. Alimenta um ciclo de conflitos perpétuos financeiramente benéficos para os provedores da tecnologia.

Enfim, a guerra é monetizada ao transformar o extermínio em um sistema tecnocrático e administrativo, onde a eficiência algorítmica e a infraestrutura de nuvem privatizam decisões soberana. Geram ganhos econômicos descomunais para um pequeno grupo de bilionários do Vale do Silício.

Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em "Obras (Quase) Completas": http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected].

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