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Rede de notícias falsas usa perfis e apelo religioso no Facebook para atrair leitores • Lupa

agencialupa.org By João Pedro Capobianco 2026-03-16 1835 words
"Se você confia em Deus, clique aqui". É assim que uma rede internacional de desinformação atrai usuários do Facebook para lucrar com conteúdos falsos e sensacionalistas relacionados ao Brasil. As narrativas aparecem publicadas em diversos sites que simulam portais de notícias e que usam a rede social da Meta para ganhar audiência.

A Lupa identificou ao menos 7 sites interligados que atuam por meio de 49 páginas camufladas no Facebook, dedicadas exclusivamente à disseminação de conteúdo falso. Todas elas utilizam anúncios pagos na Biblioteca da Meta com apelo religioso para atrair seguidores.

Em uma primeira busca, no início de março, a Lupa encontrou 165 anúncios na Biblioteca da Meta, dos quais 162 usavam imagens religiosas — a maioria exibindo Jesus Cristo — geradas por inteligência artificial (IA) para atrair cliques. Outros três recorriam a imagens de cães e gatos com a mensagem: "Se você gosta de animais, clique aqui". Na última quinta-feira (12), o total de anúncios veiculados pelos perfis chegava a 268.

Sem qualquer canal de comunicação disponível, os sites se aproveitam dos serviços de publicidade da Meta para veicular conteúdos enganosos que podem influenciar a opinião pública no Brasil em um ano eleitoral.

Para identificar esta operação em rede, a reportagem partiu de alegações falsas encontradas no Facebook que demonstraram ter origem em sites com características semelhantes. Além de nomes alusivos ao jornalismo, títulos chamativos e mesmo layout, 6 dos 7 sites começaram suas publicações na mesma data.

Investigações técnicas também mostram que quatro deles compartilham os mesmos servidores de nomes (componente digital que "traduz" os domínios em endereços IP). As características apontam para uma atuação coordenada, evidenciada pela existência de dezenas de perfis no Facebook para a disseminação dos conteúdos fraudulentos e pela mesma estratégia de anúncios junto à Meta. A reportagem utilizou buscas simples nas plataformas da Meta e técnicas de OSINT (Inteligência de Fontes Abertas).

Personagens reais, informações falsas

Em janeiro passado, a Lupa desmentiu uma publicação falsa segundo a qual o presidente Lula havia sido expulso de uma reunião na Organização das Nações Unidas (ONU) pela embaixadora da Venezuela junto à instituição. A postagem acumulava 79 mil likes no Facebook.

O fato de o representante da Venezuela na ONU ser um homem — o embaixador Samuel Moncada (pág. 6) — era mero detalhe para a notícia enganosa, que trazia a imagem de duas mulheres: a advogada Maria Teresa Belandria, que foi considerada representante da Venezuela no Brasil durante a gestão Jair Bolsonaro, e a líder da oposição a Nicolás Maduro e vencedora do Prêmio Nobel da Paz em 2025, Maria Corina Machado. O presidente brasileiro não foi expulso de qualquer reunião na ONU.

A publicação enganosa recebeu cerca de 12 mil comentários, muitos enaltecendo a suposta ação da "embaixadora". "Você pensa que não existem pessoas corajosas aí está esta embaixadora honesta e humana e cheia de amor para com a humanidade", afirma um comentário, com 841 curtidas. Poucos colocavam em xeque a veracidade da notícia.

Além da manchete falsa, a publicação no Facebook fornecia um link para a "notícia" completa, publicada em um site alimentado por conteúdos falsos — o que indica as chances de a história ter se espalhado por outras redes e formatos.

A notícia da suposta expulsão de Lula na ONU apareceu em 3 dos 7 sites que a Lupa identificou como parte de um mesmo grupo. Ao todo, a mesma narrativa foi replicada 19 vezes. Em diferentes versões, a fake é sempre apresentada com títulos chamativos e palavras usadas para captar a atenção dos leitores, como "urgente", "tensão máxima", "explodiu" ou "aplaudida de pé".

Além do presidente Lula, a primeira-dama Janja da Silva também já foi alvo da desinformação do grupo. Uma das publicações falsas mapeadas alega que Janja faria pagamentos mensais a uma casa noturna, repasses supostamente descobertos pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG).

Oportunismo e atenção a temas quentes

A desinformação espalhada pelo grupo não tem lado político. No dia 2, por exemplo, um dos sites publicou informações conflitantes sobre um mesmo fato, referente a visita do presidente Lula a Juiz de Fora (MG), por causa das fortes chuvas que causaram 72 óbitos na Zona da Mata mineira. Uma das manchetes informava que Lula havia sido vaiado ("Humilhação em Minas Gerais: Sob o Olhar de Janja, Lula é Alvo de Vaias e Revolta Popular em Visita a Áreas Atingidas"), enquanto outra alegava o contrário ("Lula é aclamado em Minas Gerais enquanto oposição enfrenta crise de imagem após tentativas de 'lacração' em meio à tragédia").

A escolha do tema não é incidental. Como um dos temas de maior repercussão no noticiário nacional, as enchentes em Minas foram usadas pelo grupo disseminador de fake news para atrair mais leitores.

Lula, Janja, Nikolas, Flávio Bolsonaro, Tarcísio de Freitas, Donald Trump e outras figuras de destaque na política aparecem em diversas publicações sensacionalistas. Outras personalidades — como a cantora Ana Castela, a influenciadora Virgínia Fonseca, o cantor Roberto Carlos e o humorista Renato Aragão — também estão presentes nas narrativas publicadas.

O interesse em temas e personagens virais é evidente. O recente caso dos irmãos Allan Michael (4) e Ágatha Isabelly (6), que desapareceram no município de Bacabal (MA) em 4 de janeiro de 2026, ganhou destaque nos sites enganosos, tendo aparecido, até o dia 4, em 235 publicações. Entre as afirmações enganosas estão falsas pistas sobre o paradeiro das crianças e a alegação de que elas teriam sido encontradas.

Dados extraídos dos sites apontam que, desde 24 de outubro de 2025, data em que seis deles começaram a publicar, 19,5 mil textos foram ao ar (até o último 4 de março). O outro site que integra a rede começou a publicar em 1 de janeiro de 2026. O ritmo de publicação do grupo, em média 148 textos por dia, é comparável ao dos maiores jornais do país, como a Folha de S.Paulo (média de 160 publicações diárias).

A diretora de pesquisa e operações do InternetLab Heloísa Massaro destaca que o caso demonstra a necessidade de uma discussão sistêmica sobre regulação de plataformas e moderação de conteúdo nas redes. "No limite, uma peça de desinformação que impacta como uma pessoa se comporta tem a ver com o ecossistema como um todo", afirmou. "Uma discussão que foca em um ou outro conteúdo não consegue responder de forma ideal a situações como essa e acaba sendo inócua, porque os casos se tornam quase anedóticos", acrescentou.

Atuação no Facebook

Para fazer com que os conteúdos enganosos cheguem às pessoas, a rede usa perfis no Facebook dedicados a disseminá-los. Ao contrário dos sites, que têm nomes alusivos ao jornalismo — como "notícias diárias" e "notícias quentes" —, as páginas na plataforma da Meta adotam outra estratégia.

Com títulos sem qualquer relação com o universo noticioso, os perfis usam nomes genéricos, por vezes ligados à ideia de espiritualidade ("Coração aberto", "Viver com propósito", "Um minuto pra mim", "Luz em meio à escuridão") ou com alusão a Portugal ("Contos de Portugal", "Descubra Portugal", "Portugal Secreto").

A única atividade observada nessas contas é o compartilhamento do conteúdo dos sites de notícias falsas. Juntos, os 49 perfis encontrados pela reportagem têm 1,8 milhão de seguidores.

Os perfis adotam o mesmo padrão nos anúncios feitos na Biblioteca da Meta. Todos eles usam ilustrações geradas por IA que remetem à Jesus Cristo e veiculam três ou cinco anúncios. Além disso, o público-alvo escolhido é, majoritariamente, pessoas que residem em Portugal — possivelmente os brasileiros, dado o conteúdo dos sites.

Mesmo nos anúncios com abrangência global, o público atingido, segundo informações da Biblioteca de Anúncios da Meta, se concentra em Portugal e em parte da Europa ocidental.

Dos 49 perfis mapeados, apenas 7 não veicularam publicações pagas no mesmo padrão. Entre os 268 anúncios encontrados até a última quinta-feira (12), 159 continham uma sinalização de que já haviam sido excluídos pela Meta após a plataforma ter detectado violação de seus Padrões de Publicidade. No entanto, não é possível saber por quanto tempo os anúncios ficaram ativos. Ao todo, 109 anúncios com as mesmas características permaneciam visíveis na Biblioteca de Anúncios.

Massaro também levanta um outro questionamento, sobre a atuação da Meta em relação a perfis que já foram indicados como desinformadores por parceiros da plataforma (caso da Lupa, que integra o 3PFC).

Se a empresa tem parceiros que estão apontando que um perfil tem conteúdo que já foi checado por desinformação, eventualmente a empresa teria capacidade de fazer uma investigação e identificar eventuais fraudes nesse sentido".Heloísa Massaro, diretora de pesquisa e operações do InternetLab.

Se a empr
esa tem parceiros que estão apontando que um perfil tem conteúdo que já foi checado por desinformação, eventualmente a empresa teria capacidade de fazer uma investigação e identificar eventuais fraudes nesse sentido".

Do total de páginas analisadas (49), duas foram excluídas durante a apuração.

Identidade dos anunciantes não está clara

Nas informações disponíveis na Biblioteca de Anúncios da Meta, estão o nome do perfil atrelado a cada anúncio e o "beneficiário e pagador" das publicações. A maior parte dos anúncios disponíveis apresenta nomes genéricos e sem relação evidente com o Brasil. Um deles é, por exemplo, "Pinoy Tagapagbalita", que, de acordo com ferramentas online de tradução, é um termo genérico escrito em filipino que significa "jornalista filipino".

Outros nomes apresentados como beneficiários e pagadores dos anúncios são igualmente genéricos e não identificam uma pessoa ou conta específica: São eles: "Market 5.0", "Entertainment Today", "El Mundo de las Estrellas" e "Pilipinas Pulse".

As informações na Biblioteca de Anúncios também contrastam com as fornecidas pelos próprios perfis para o público em geral. O perfil "Viver Com Propósito", por exemplo, informa aos usuários que está sediado no bairro do Cachambi, no Rio de Janeiro. Na Biblioteca de Anúncios, porém, a Meta informa que os administradores da página estão sediados no Vietnã.

Uma possível relação do grupo com o sudeste asiático pode explicar a confusão entre conteúdos em português que fazem sucesso com o público brasileiro e o país escolhido como destino dos anúncios (Portugal). Nos textos, a falta de intimidade com o idioma se revela em múltiplos erros básicos de ortografia e traduções equivocadas. Além disso, há fortes indícios de que as notícias sejam geradas por IA (exemplo), o que ajuda a explicar o alto volume de publicações feitas nos sites.

Em nota à Lupa, a Meta informou que as políticas da plataforma "definem categorias específicas e removem conteúdos quando há risco de dano iminente ou interferência em processos políticos". A empresa também afirmou combater "práticas associadas à desinformação, como contas falsas, fraudes e comportamento inautêntico coordenado".

Em relação às ações tomadas após indícios de que um perfil dissemina desinformação, a Meta disse que, quando um conteúdo é classificado como falso, reduz sua distribuição e aplica rótulos para informar as pessoas antes que o compartilhem. Leia a nota completa da empresa aqui.

A reportagem enviou à Meta os 49 links dos perfis mapeados como distribuidores de conteúdo fraudulento, sendo que dois já haviam sido excluídos. Até o fechamento da matéria, os 47 perfis restantes continuavam no ar.

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