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Apesar da falta de evidências científicas, esses criadores de conteúdo vêm faturando com informações enganosas ao vender cursos e protocolos para "estimular o hormônio sexual masculino". Como consequência, atraem novos integrantes para a chamada "machosfera", uma espécie de subcultura online com comunidades, canais, perfis e conteúdos centrados na promoção do desenvolvimento masculino e em críticas ao feminismo.
A reportagem identificou que os três perfis que mais propagam a prática somam 1,4 milhão de seguidores no Instagram e no TikTok. Eles usam expressões motivacionais nas descrições de seus perfis, normalmente associadas à performance, liderança, potencial e prosperidade.
Ao promoverem a suposta necessidade de aumento da testosterona, esses perfis vinculam o hormônio à manutenção da masculinidade e reforçam a narrativa de que é preciso evitar que homens sejam "afeminados".
Enquanto a venda de protocolos sem evidências, em geral, ebooks ou cursos com dicas de dieta e outras práticas, incluindo exposição solar, que custam em média R$ 290, enriquece esses influenciadores, usuários que acreditam e engajam nesses conteúdos colocam a própria saúde em risco.E apesar de conteúdos enganosos violarem as políticas da Meta (proprietária do Instagram, Facebook, Threads e WhatsApp) e doTikTok, por exemplo, as redes sociais também lucram com anúncios de conteúdo falso e prejudicial à saúde. A assessoria de imprensa das empresas foi procurada e a reportagem será atualizada em caso de resposta.
Sol na genitália não aumenta a testosterona
A prática de expor os testículos ao sol se popularizou pela primeira vez nas redes sociais brasileiras entre 2022 e 2023, especialmente no TikTok, ao importar dos Estados Unidos a trend "perineum sunning", ou "sol no períneo". Por lá, a moda começou ainda antes, em 2019, e incentivava a expor ao sol a região entre o ânus e a genitália para dar ao corpo uma dose maior de vitamina D e aumentar o desejo sexual. Mulheres também eram adeptas. Esse método, contudo, não tem qualquer evidência científica.
A partir de 2025, a prática voltou a se popularizar no Brasil e a ser estimulada por influenciadores homens, só que em vez de expor o períneo, a ideia é expor a genitália à luz solar. Por aqui, o método é conhecido como "sol nas bolas" ou "sol nos ovos".
Os entusiastas afirmam que a exposição da genitália ao sol pode elevar a testosterona, mas divergem sobre a magnitude do efeito: alguns falam em aumentos de até 300%, enquanto outros chegam a mencionar 1.000%. A explicação deles é que a região é rica em receptores hormonais sensíveis à luz, e a exposição da área à luz solar e ao calor localizado aumentariam a produção de vitamina D que, por sua vez, estimulariam a testosterona.
No entanto, essa teoria não tem qualquer base científica. Não existem estudos clínicos que comprovem que o sol nos testículos é saudável ou que aumente a testosterona. Ao contrário: especialistas alertam para o risco de queimadura, uma vez que a pele na região escrotal é sensível. Além disso, a prática abre brechas para lesões cancerígenas, como o melanoma.
Segundo o médico urologista Leonardo Seligra, coordenador do Departamento de Medicina Sexual da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), o mecanismo de produção de testosterona não tem relação direta com a exposição solar ou níveis de vitamina D.
A testosterona é produzida principalmente nos testículos. Nas mulheres também é produzido, em menor quantidade, nos ovários. O sol nessa região não tem qualquer relação com o aumento desse hormônio. Médicos recomendam que qualquer suspeita de alteração deve ser avaliada por especialistas. Apenas após diagnóstico confirmado com exames é se pode avaliar tratamento adequado para cada indivíduo.
"A exposição ao sol, especialmente em atividades físicas ao ar livre, está associada a benefícios como melhora dos níveis de vitamina D, saúde cardiovascular e respiratória. No entanto, essa associação é com a exposição geral e hábitos saudáveis, não com a exposição direta na genitália. Hábitos saudáveis, portanto, levam a uma melhora natural dos níveis de testosterona."Leonardo Seligra, médico urologista e coordenador do Departamento de Medicina Sexual da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU)
"A exposição ao sol, especialmente em atividades físicas ao ar livre, está associada a benefícios como melhora dos níveis de vitamina D, saúde cardiovascular e respiratória. No entanto, essa associação é com a exposição geral e hábitos saudáveis, não com a exposição direta na genitália. Hábitos saudáveis, portanto, levam a uma melhora natural dos níveis de testosterona."
Para o médico endocrinologista Alexandre Hohl, diretor da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso) e diretor do Departamento de Endocrinologia Feminina, Andrologia e Transgeneridade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), a moda é "simplesmente absurda".
"Parte do problema é a tendência de as pessoas acharem que tem que dosar a testosterona. Mas não se testa a testosterona em homens assintomáticos, apenas em adultos com queixas da esfera sexual, entre outros", analisa Hohl.
Vale ainda destacar que aumentar a testosterona artificialmente, sem indicação médica, pode aumentar os riscos de infarto, hipertensão e causar infertilidade.
De onde saiu essa ideia?
Os principais divulgadores dessa prática citam um estudo de 1939, Influence of Ultraviolet Irradiation Upon Excretion of Sex Hormones in the Male (Influência da Irradiação Ultravioleta sobre a Excreção de Hormônios Sexuais no Homem, em tradução livre), que investigou como a exposição à luz ultravioleta (UV) afeta a produção de hormônios sexuais em homens.
Os autores queriam verificar se fenômenos biológicos observados em animais, como a influência da luz no ciclo sexual, na fertilidade e na atividade da glândula pituitária de aves, ovelhas e cervos, também se aplicava aos seres humanos. No total, apenas cinco homens que sofriam de depressão participaram. Eles foram submetidos à irradiação de raios ultravioleta em diferentes partes do corpo (peito, face, genitais e costas). Depois, tiveram a resposta hormonal medida por meio da excreção de androsterona (um hormônio sexual masculino) na urina.
Os próprios estudiosos concluíram, na época, que uma série de fatores podem ter influenciado o resultado do experimento e sugeriram investigações futuras.
A comunidade científica aponta, também, uma série de falhas metodológicas no experimento, como o escopo reduzido de participantes e o embasamento a partir de amostras de urina para análise hormonal — considerado menos preciso do que a medição pelo sangue para determinar os níveis de testosterona. Vale ainda ressaltar que o experimento não segue o padrão ouro de estudos clínicos, ou seja: não teve randomização e duplo-cego para avaliação, tampouco foi revisado por pares.
Desde o experimento de 1939, nenhum outro estudo comprovou a eficácia de tomar sol na genitália para aumento hormonal. Embora pesquisas recentes busquem entender a relação entre vitamina D e testosterona, especialistas convergem no entendimento de que hábitos alimentares saudáveis e exercício físico ao ar livre já são suficientes para manter os níveis desse hormônio masculino normais.
'Não seja afeminado' e o ideal do homem alfa
Influenciadores mapeados pela Lupa costumam usar expressões como "não seja afeminado" para vender um ideal de "homem alfa" que pode, supostamente, ser atingido por meio de protocolos sem embasamento científico para alcançar esse resultado. Só que as práticas propagadas têm menos relação com a ciência e muito mais com ideologia e dinheiro fácil pela internet.
O termo "homem alfa" refere-se a um estereótipo masculino associado à força, virilidade, liderança e dominação. Já a "mulher beta" é associada à submissão e obediência. Na biologia, contudo, estudos recentes apontam que a hipótese de "macho alfa dominador" é exceção na natureza. Ou seja: a ideia de que biologicamente os machos são superiores e líderes naturais é um mito.
Apesar disso, o conceito é acionado por homens que se consideram no direito de "dominar" mulheres. Um exemplo recente é o do tenente-coronel da Polícia Militar de São Paulo, Geraldo Neto, que usava os termos "macho alfa provedor" e "fêmea beta" para humilhar a esposa, a soldado Gisele Alves, morta com um tiro na cabeça. Ele é réu no caso.
Em um dos vídeos identificados pela reportagem, um entusiasta do protocolo das "bolas ao sol" afirma que a "saída" para homens que são afeminados e que querem se "transformar em homens masculinizados" seria adotar hábitos como comer carne com gordura, tomar sol diário e pagar as contas de mulheres que "gastam muito". Ele próprio diz ter seguido esse caminho.
Esse movimento que busca "eliminar homens afeminados" coincide com o aumento do interesse por testosterona — pelo menos na internet. Análise do Google Trends mostra que, nos últimos 10 anos, o interesse por termos como "testosterona", "aumentar testosterona" e "testosterona baixa", entre outros, aumentou entre 170% e 350%. Para retomar o exemplo, o coronel da PM réu por feminicídio chegou a admitir em depoimento que tem "testosterona de jovem" e argumentou que o excesso de libido justificava a pressão por relações sexuais com a mulher.
Em paralelo, nas redes, teorias conspiratórias sobre uma suposta tentativa de acabar com os homens ganham audiência. Um vídeo criado por inteligência artificial (IA), por exemplo, chamado "O Fim dos Homens", já somou mais de 8,8 milhões de visualizações e 52,2 mil compartilhamentos só no Instagram. A gravação alega que a testosterona nos homens está diminuindo e que isso é um "projeto" para tornar os homens biologicamente inofensivos.
O conteúdo foi postado originalmente em um perfil que só publica vídeos conspiratórios gerados por IA. Na legenda, sugere que "homem com testosterona baixa não se revolta. Ele obedece. Eles querem ovelhas. A natureza te fez leão" — embora não indique quem seriam "eles".
Para a pesquisadora Julie Ricard, do Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (FGV), existe um processo de construção de uma "identidade masculinista" na machosfera brasileira. E essa construção passa pelo combate a uma suposta opressão da sociedade e das mulheres aos homens.
"Essa construção vai sendo feita tanto pela definição do que é esse tal homem alfa, que seria um homem de uma masculinidade mais tradicional, tóxica, de padrões heteronormativos, como pelo que são os homens betas — que seriam os outros, os rejeitados — na leitura deles — pela sociedade e pelas mulheres", analisa a pesquisadora.
Ricard é uma das autoras do estudo "A machosfera é política: construção ideológica e ataques a políticas de gênero", que se debruçou em mais de 7 milhões de conteúdos publicados entre 2015 e 2025 em 85 grupos públicos no Telegram. A análise mostra que a machosfera brasileira nessa rede social opera como espaço de socialização ideológica em que a misoginia articula uma guerra cultural, anti-esquerdismo, anti-institucionalismo e hostilidade a direitos.
"O que a gente vê muito é que o discurso sobre o ideal do homem alfa acompanha o discurso racista, de ódio de classe, de ódio contra pessoas LGBTQIAPN+"Julie Ricard, pesquisadora da FGV
"O que a gente vê muito é que o discurso sobre o ideal do homem alfa acompanha o discurso racista, de ódio de classe, de ódio contra pessoas LGBTQIAPN+"
Não é à toa que a construção de características desse homem alfa passa, necessariamente, pelo desprezo características consideradas inferiores, tanto nas mulheres como em outros grupos. Isso fica evidente nos achados da pesquisa: ataques recorrentes a políticas de gênero, especialmente à Lei Maria da Penha, à educação sexual e aos direitos reprodutivos, frequentemente enquadrados como ameaças aos homens, à família e à ordem moral.
O dado alarmante é que o interesse por esse tipo de conteúdo só cresce: segundo a pesquisadora, desde antes da pandemia da Covid-19, em 2020, esses grupos cresceram mais de 600 vezes. "É um crescimento exponencial."
Enquanto isso, do ponto de vista científico, não existe qualquer evidência de que a falta de testosterona estaria "afeminando" os homens.
"Isso é uma uma visão que vai contra a evolução social e contra a compreensão de diversas masculinidades. A testosterona nunca foi e nunca será determinante disso."Leonardo Seligra, médico urologista e coordenador do Departamento de Medicina Sexual da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU)
"Isso é uma uma visão que vai contra a evolução social e contra a compreensão de diversas masculinidades. A testosterona nunca foi e nunca será determinante disso."
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Editado por Yara Amorim e Evelin Mendes
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▸ Source Quality 4/5
Source classification (primary/secondary/tertiary), named vs anonymous, expert credentials, variety
Summary
Multiple named expert sources with credentials, but no primary sources from the influencers being criticized.
Findings 4
"Leonardo Seligra, médico urologista e coordenador do Departamento de Medicina Sexual da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU)"
Named medical expert with institutional affiliation
Expert source"Alexandre Hohl, diretor da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso)"
Named endocrinologist with institutional credentials
Expert source"GBTQIAPN+"Julie Ricard, pesquisadora da FGV "O que a gente vê muito é que o discurso sobre o ideal do homem alfa acompanha o discurso racista, d"
Named academic researcher with institutional affiliation
Expert source"estudo de 1939, Influence of Ultraviolet Irradiation Upon Excretion of Sex Hormones in the Male"
Historical study cited but not directly sourced
Tertiary source▸ Perspective Balance 3/5
Acknowledgment of multiple viewpoints, counterarguments, and balanced presentation
Summary
Presents the false claims being made, but primarily focuses on debunking them with expert counterarguments.
Findings 3
"Os entusiastas afirmam que a exposição da genitália ao sol pode elevar a testosterona"
Acknowledges the claims being made by proponents
Balance indicator"No entanto, essa teoria não tem qualquer base científica"
Presents counterargument to the claims
Balance indicator"Isso é falso. E pode causar sérios danos à saúde."
Strong declarative statement against the practice
One sided▸ Contextual Depth 4/5
Background information, statistics, comprehensiveness of coverage
Summary
Provides historical context, statistical data, and comprehensive background on the phenomenon.
Findings 3
"A prática de expor os testículos ao sol se popularizou pela primeira vez nas redes sociais brasileiras entre 2022 e 2023"
Historical context about when the trend started
Background"os três perfis que mais propagam a prática somam 1,4 milhão de seguidores"
Quantitative data on reach
Statistic"Análise do Google Trends mostra que, nos últimos 10 anos, o interesse por termos como "testosterona", "aumentar testosterona" e"
Statistical trend data
Background▸ Language Neutrality 4/5
Absence of loaded, sensationalist, or politically biased language
Summary
Mostly neutral language with a few instances of judgmental terms.
Findings 3
"A reportagem identificou que os três perfis que mais propagam a prática"
Neutral reporting language
Neutral language"a moda é "simplesmente absurda". "Parte "
Quoted expert uses strong judgmental language
Sensationalist"Segundo o médico urologista Leonardo Seligra"
Neutral attribution of expert opinion
Neutral language▸ Transparency 5/5
Author attribution, dates, methodology disclosure, quote attribution
Summary
Full author attribution, date, clear quote attribution, and methodology disclosure.
Findings 2
"A reportagem identificou que os três perfis que mais propagam a prática"
Describes investigative methodology
Methodology"Leonardo Seligra, médico urologista e coordenador do Departamento de Medicina Sexual da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU)"
Clear attribution of quote to expert with credentials
Quote attribution▸ Logical Coherence 5/5
Internal consistency of claims, absence of contradictions and unsupported causation
Summary
No logical inconsistencies detected; claims are well-supported and coherent.
Core Claims
"Exposing testicles to sunlight does not increase testosterone and can cause health damage"
Medical experts Leonardo Seligra and Alexandre Hohl Named secondary
"Influencers are promoting this false practice for financial gain"
Journalistic investigation identifying specific profiles and their follower counts Named secondary
"The 'machosphere' promotes toxic masculinity and misinformation"
Researcher Julie Ricard and analysis of Telegram content Named secondary
Logic Model Inspector
ConsistentExtracted Propositions (7)
-
P1
"Three profiles promoting the practice have 1.4 million followers"
Factual -
P2
"The practice originated from 'perineum sunning' trend in the US"
Factual -
P3
"A 1939 study had methodological flaws and limited participants"
Factual -
P4
"Google Trends shows 170-350% increase in testosterone-related searches over 10 years"
Factual -
P5
"Promoting false testosterone protocols causes attracts new members to machosphere"
Causal -
P6
"Exposing genitals to sun causes risk of burns and cancer"
Causal -
P7
"Artificial testosterone increase without medical indication causes increased risk of heart attack, hypertension, infertility"
Causal
Claim Relationships Graph
View Formal Logic Representation
=== Propositions === P1 [factual]: Three profiles promoting the practice have 1.4 million followers P2 [factual]: The practice originated from 'perineum sunning' trend in the US P3 [factual]: A 1939 study had methodological flaws and limited participants P4 [factual]: Google Trends shows 170-350% increase in testosterone-related searches over 10 years P5 [causal]: Promoting false testosterone protocols causes attracts new members to machosphere P6 [causal]: Exposing genitals to sun causes risk of burns and cancer P7 [causal]: Artificial testosterone increase without medical indication causes increased risk of heart attack, hypertension, infertility === Causal Graph === promoting false testosterone protocols -> attracts new members to machosphere exposing genitals to sun -> risk of burns and cancer artificial testosterone increase without medical indication -> increased risk of heart attack hypertension infertility
All claims are logically consistent. No contradictions, temporal issues, or circular reasoning detected.
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